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domingo, 21 de janeiro de 2018

ZAGOR COLLEZIONE STORICA A COLORI


Composta por 212 volumes de 272 páginas coloridas, capa com abas e de formato 18X26 cm, ZAGOR COLLEZIONE STORICA A COLORI, (ZCSC), manteve-se nas bancas italianas entre fevereiro de 2012 e outubro de 2017. Iniciativa resultante da parceria entre a Sergio Bonelli Editore e Gruppo Editoriale L'Espresso, no seguimento do sucesso obtido com coleções semelhantes de Tex e Dylan Dog. Os responsáveis procuravam, desta forma, replicar e potenciar os excelentes resultados obtidos, especialmente com Tex, o que se viria a confirmar!

A superação dos resultados estimados leva a diversos prolongamentos da série, muito para além das 30 edições inicialmente previstas, sendo interrompida no Nº 187, por se aproximar demasiado da série mensal, da qual republicou as primeiras quinhentas edições.
Em maio de 2017, após a publicação de ZAGOR SPECIALE - COLLEZIONE STORICA A COLORI, (ZSCSC), a coleção é retomada com a publicação do Nº 188. Este prolongamento acrescenta mais 25 volumes à série, mantendo-a nas bancas até final de outubro, completando então os 212 números já referidos e republicando 565 álbuns da serie mensal.

Cada edição de 272 páginas coloridas é vendida, semanalmente, em conjunto com os jornais La Repubblica e o Espresso ao preço de 6,90 Euros, inclui como extras uma introdução de Luca Raffaelli e textos assinados, normalmente, por Moreno Burattini e Luca Barbieri.

Preferia que as aventuras se apresentassem a preto e branco tal como foram publicadas originalmente e que as histórias não se apresentassem em perpétua continuação, ou seja, que as edições variassem o numero de páginas para se adaptarem às histórias. São, no entanto, pormenores! ZCSC é um produto que apresenta uma excelente relação preço/qualidade e que representa para os colecionadores portugueses e brasileiros, que não considerem o italiano um problema, uma oportunidade para conhecer, de uma forma cronológica, praticamente, toda a obra fruto da imaginação e arte, de Sergio Bonelli e Gallieno Ferri: ZAGOR, O ESPIRITO DA MACHADINHA!

Listagem completa das histórias.

Para informação detalhada sobre cada volume desta excelente coleção recomendo a consulta  do blogue; Zagor e altro

REFERENCIAS:

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

AUDÁCIA EDITORIAL OU LOUCURA EMPRESARIAL?

Com o anunciado regresso dos personagens Dylan Dog (DD), Martin Mystiere (MM), Nick Raider (NR) e Nathan Never (NN) às bancas brasileiras previsto para o final de Inverno, início de Primavera, 2018 prepara-se para ser um ano magnifico para os apreciadores da banda desenhada, especialmente para os fãs da gama Bonelli. Além dos aguardados regressos, a destacar o lançamento de várias edições especiais de Tex, (originadas pelos 70 anos do personagem), e a manutenção de todas as coleções da gama com exceção do TEX EM CORES (TC), que foi cancelado[1]. Adicionalmente, em concorrência com as publicações da Mythos, teremos o fantástico TEX GOLD da Salvat. O elevado número de publicações previsto para 2018 torna o Brasil no segundo maior mercado Bonelli, somente suplantado pela Itália, facto surpreendente tendo em conta que o país continua a atravessar uma grave crise económica, financeira e politica!

As novas publicações apresentar-se-ão no formato Bonelli, com histórias completas e selecionadas, pelo que se deduz, sem respeito pela cronologia. Todos sabemos que existem colecionadores que não apreciam histórias em continuação, pelo que as opções da Mythos por histórias completas e selecionadas são perfeitamente compreensíveis, ainda mais justificadas pelo elevado número de aventuras, disponíveis, que continuam inéditas no Brasil.

No entanto, atendendo ao elevado número de publicações prevista para 2018, à grave crise que afeta o povo brasileiro, à concorrência provocada pela Salvat, com o excelente TEX GOLD que além da excelente qualidade acrescenta um ótimo preço, poderão estas publicações ter sucesso?


E a seleção de personagens? Serão estes os mais adequados para lançar? Porque não Mister No ou, a excelente série, A HISTÓRIA DO OESTE?  Quais os critérios de seleção dos personagens a publicar?

O formato italiano e o numero de páginas por edição são outras questões pertinentes! Muitos leitores demonstram a preferência por este formato e, verdade seja dita, a editora já tentou, sem sucesso, implementa-lo[2] nas suas publicações. Porque é que esta tentativa há de ser diferente?

Mais grave, será que estes lançamentos não colocarão em causa publicações como ZAGOR, ZAGOR ESPECIAL (ZE) ou JÚLIA que em 2013 foram alvo de alterações, à forma como se apresentam, para se manterem nas bancas?

As intenções da Mythos são muito ambiciosas e louváveis, mas, aparentemente, a tomada de decisão é mais ditada pelo coração do que pela razão, senão vejamos:


Em 2012, em entrevista realizada por Pedro Cleto publicada no blogue do Tex, Dorival Vitor Lopes (DVL) confidenciou que os títulos da editora que menos vendiam eram ZAGOR, MÁGICO VENTO (MV) e JÚLIA, que as vendas destes personagens tinham estabilizado, e que publicar revistas no formato original italiano significaria aumentar muito o preço de capa. Se considerarmos que nestes últimos 6 anos a conjuntura económica brasileira piorou drasticamente, que DD, MM, NR e NN já foram publicados no Brasil[3] e que foram cancelados, pressupõe-se, por venderem menos que Zagor, MV e Júlia[4], que razões é que levam a editora a acreditar que é possível lançar, com sucesso, as 4 publicações em formato italiano, em datas tão próximas[5]?

O próprio editor da Mythos reconhece que os colecionadores exigem todo o tipo de coleções, mas na altura de comprar encontram mil e uma desculpas para não o fazer[6]. O formato, o preço, o papel, por não ser colorido, por ser colorido, por não respeitar a cronologia, etc.


Em agosto de 2013 a Mythos procedeu a modificações nas coleções de Zagor e Júlia, dobrando o numero de páginas por edição e o preço, e alterando a periodicidade para bimestral. Alterações que visavam adaptar/melhorar o sistema de distribuição, recolhimento e pagamento das revistas, com o objetivo de melhorar a rentabilidade das mesmas. Considerando que estas alterações visavam as publicações menos rentáveis, e que as novas publicações a lançar em 2018 vendiam menos, quando publicadas, que ZAGOR, ZE e JÚLIA, e que por este motivo foram canceladas, não seria mais adequado implementar essas alterações nas novas publicações?


Em Março de 2016 a Mythos dirigiu-se aos fãs, num comunicado intitulado “O futuro de Tex e demais personagens Bonelli no Brasil”, demonstrando grande preocupação com as suas publicações. No comunicado, DVL informava que ZAGOR, JÚLIA E TEX COLEÇÃO (TXC) tinham entrado no vermelho, isto é, tinham começado a dar prejuízo juntamente com TC e TEX GIGANTE COLORIDO e transmitia a ideia de que o futuro das publicações estava nas mãos dos colecionadores o que gerou uma onda de comentários:

 “…. Realmente com a crise que afeta o nosso país (Brasil) eu mesmo de um ano para cá passei a comprar apenas o Tex mensal e algumas poucas outras edições, como por exemplo Tex Ouro, Tex Gigante. …”[7]

“Como sugestão eu digo que os repetecos com cara de encalhe com capa nova não irão atrair novos leitores. Por isso acho que deveria enxugar o número de edições no mercado. ...”[8]

“…. Se a editora pensar logicamente, pensando em lucrar e se sustentar no mercado sem trabalhar no vermelho, precisa rever algumas coisas. Precisa se organizar.  Antes de mais nada deve reduzir a quantidade de “coleções” de Tex que está indo pra banca. …”[9]

Eu tenho comprado regularmente tudo que a Mythos publica de nosso Tex – sou fã e colecionador há mais de 30 anos. Mas confesso que tenho enfrentado muita dificuldade para continuar. …”[10]

“.... Reduzir o numero de títulos e publicar só historias inéditas é uma forma de aumentar as vendas de cada um. Perante o cenário manifestado, talvez seja a única forma da manutenção, de, pelo menos, alguns títulos.”[11]

As sugestões e criticas são muito variadas, mas há uma critica que se destaca pela quantidade: excesso de publicações à venda! Como se pode observar pelos comentários já apresentados e que continuam:

“… diminuir a quantidade de repetecos, estamos vivendo uma época de crise, isto é um fato e os leitores não tem condições de adquirir todas as edições que saem nas bancas, …”[12]


“…. Eu acho que existe muito repetecos em Tex, … Como disse o Everton a editora tem que pensar na sua própria sobrevivência, vai ter repensar. Me desculpe ai, mas não entendi o porquê deste Tex Platinum, para mim totalmente desnecessário este lançamento, … Só porque tem um acabamento melhor? Isso não, dinheiro não dá em árvore.”[13]

“Sou colecionador há mais de 25 anos. Tenho 14.000 revistas em minha coleção (de tudo que é estilo). Acho que a Mythos sobrecarregou o mercado com títulos Tex. Isso pode ser bom pra pessoas que podem comprar tudo, mas não é nada salutar para um mercado em crise como o brasileiro.  Reduzam para o essencial.”[14]

“Disse, quando não vende cancela, muitos inclusive o Editor foram contra, o que fazer então se uma revista não está vendendo, a Editora vai bancar os prejuízos pra agradar os leitores?  Os que não querem as suas revistas canceladas vão pagar um preço 10 vezes a mais pra manter as revistas em banca? Sou contra pagar esses preços exorbitantes nessas revistas, …”[15]

Estes são alguns dos variados comentários de colecionadores que pensam que existem demasiadas coleções de reedições, eu próprio me identifico com essa posição “…. Em minha opinião existem demasiadas coleções de reedições em publicação, muitas delas sem qualidade, reduzindo as vendas de todas porque dividem os poucos colecionadores na hora de comprar, porque são raros os que compram tudo.”[16]

O editor percebeu que uma das sugestões dadas pelos colecionadores era a redução das publicações existentes “…. Nos comentários acima, nota-se que quase todos defendem as coleções que fazem: “Nas minhas vocês não devem mexer, nas outras que eu não compro, pode.””

O que é um facto! Grande parte dos leitores não se importa com o cancelamento de determinadas séries, as que não coleciona! O editor argumenta: “…Como editor eu tenho que pensar em TODOS os leitores. … As republicações – que muitos criticam – são importantes para os leitores novos. …”

Sem dúvida, as republicações são importantes e devem existir, mas não podem, por serem demasiadas e por concorrerem entre elas, colocar em causa a existência de todas. Como referiu Pedro Pereira “…. Diz-se que por vezes é preciso cortar uma mão para salvar um braço e talvez seja isso que há a fazer: reduzir o número de publicações!...”.


Confesso que não compreendo as opções da Mythos! Não as percebi quando lançou TC e manteve OS GRANDES CLÁSSICOS TEX (OGCT)[17] em concorrência direta. Não compreendo o excesso de republicações que dividem as vendas, esmagam as margens de lucro e colocam em causa, porventura, ZAGOR, ZE e JÙLIA, as publicações que menos vendem. Não compreendo que em época de grave crise se lancem, praticamente em simultâneo e sem ter conhecimento das vendas de cada, quatro personagens que quando publicados pela mesma editora[18], vendiam menos que qualquer um dos atualmente publicados. Não compreendo que não se faça uma sondagem aos leitores/compradores sobre os personagens que gostariam/comprariam[19]. E não compreendo que as medidas adotadas para rentabilizar ZAGOR, ZE E JÚLIA, mais precisamente, edições bimestrais e 200 páginas por edição não sejam utilizadas nas novas publicações.


É verdade que o lançamento de qualquer publicação, de qualquer personagem, tem riscos! E também é verdade que o publico em geral não têm acesso aos dados que possibilitaram a tomada de decisão. Todavia, a difícil conjuntura que o Brasil atravessa, a concorrência movida pelo TEX GOLD da Salvat, o excesso de publicações Bonelli nas bancas, os poucos leitores que os novos personagens têm no Brasil, e o ritmo acelerado com que as novas publicações vão entrar nas bancas, leva-me a perspetivar que as novas coleções terão uma vida editorial muito curta, e que a tomada de decisão para os respetivos lançamentos, aparenta ter, mais de "loucura" empresarial do que audácia editorial.

NOTAS FINAIS:

Nota 1: mais do que criticar a Mythos e seus responsáveis, que considero pessoas muito competentes, com larga experiencia na área, aos quais a BD e os colecionadores muito devem, pretendo expressar a minha opinião, e se à algo que a Mythos não pode ser acusada é de falta de coragem ao lançar 4 coleções na atual situação.

Nota 2: relativamente às novas publicações, apenas tenciono comprar MM que, em minha opinião, juntamente com DD, são as únicas que têm algumas probabilidades de sucesso. A publicação de NN é a menos compreensível, sinceramente acredito que será cancelada antes do quarto numero e que Mister No ou A HISTÓRIA DO OESTE teriam maiores probabilidades de sucesso. Do material mais recente da SBE gostaria que a Mythos publicasse “Le Storie”, aventuras fechadas e diversificadas.

Nota 3: Não sou contra republicações! Sou contra republicações que dão prejuízo e que colocam em causa outras publicações pela divisão dos colecionadores na altura da compra. Se a coleção dá lucro então deve manter-se. Até 2016 comprava todas as publicações da Mythos da gama Bonelli com exceção de JÚLIA. Parei de comprar TXC, TEX OURO E TEX EDIÇÃO HISTÓRICA por considerar publicações caras e por não terem qualidade e nunca comprei TEX PLATINUM. Com referi são demasiadas publicações e, à semelhança da grande maioria dos colecionadores, não tenho poder aquisitivo para adquirir tudo o que é publicado pelo que, tenho de fazer opções.

Nota 4: Não sou a favor do cancelamento se a coleção dá prejuízo! Sou a favor do cancelamento se a coleção dá prejuízo, reiteradamente, ao longo de um largo período e sem perspetivas de viabilidade.

REFERENCIAS:



[1] Num comentário ao POST “UM ANO BOMBÁSTICO” DVL coloca a hipótese de continuar a coleção futuramente.
[2] TEX E OS AVENTUREIROS, dos 6 numeros previstos, como resultado das baixas vendas, o sexto numero já foi publicada no “formatinho”. TEX EM CORES, a publicação foi interrompida por diversas vezes sendo o ultimo numero o 34. CASSIDY&DEMIEN que inclui duas minisséries dos dois personagens, de 18 volumes cada, foi cancelada no numero 5.
[3] Dylan Dog teve 40 edições regulares publicadas pela Mythos entre julho de 2002 e dezembro de 2005. Martin Mystière teve 42 edições pela Mythos e foi publicado entre agosto de 2002 e janeiro de 2006. A coleção NICK RAIDER da Mythos teve apenas 16 números publicados entre agosto de 2002 e fevereiro de 2004. Nathan Never é o único personagem dos 4 anunciados que nunca teve coleção própria na Mythos, teve apenas uma história curta publicada no TEX E OS AVENTUREIROS Nº1.
[4] Nathan Never e Nick Raider já tinham sido cancelados aquando do lançamento de Júlia.
[5] DYLAN DOG e MARTIN MYSTIERE têm o lançamento previsto para março e os seguintes números para abril, julho e setembro. NICK RAIDER e NATHAN NEVER prevê-se a estreia em maio, com os números seguintes a serem publicados, respetivamente, em junho, agosto e outubro. Pelas datas de publicação não é possível identificar a periodicidade, no entanto, se as coleções tiverem continuação após os 4 números previstos para 2018, aparentam ser bimestrais.
[6] TEX E OS AVENTUREIROS, TEX EM CORES E DEMIEN E CASSIDY são 3 exemplos de publicações que foram canceladas devido ao baixo volume de vendas.
[7] Comentário de Jean César Vasconcelos
[8] Comentário de Jessé Bicodepena
[9] Comentário de Everton Junior Pelisson
[10] Comentário de Rouxinol do Rinaré
[11] Comentário de Jorge de Carvalho
[12] Comentário de Paulinho
[13] Comentário de Lupercio Brambilla
[14] Comentário de Walber Feijó
[15] Comentário de Nei Campos
[16] No texto intitulado "O limite da tolerância" expressei a minha opinião sobre o número excessivo de títulos de Tex existentes nas bancas e prováveis consequências que, felizmente até ao momento, não se verificaram.
[17] No artigo “RECOMEÇAR” procurei demonstrar que a manutenção da coleção OGCT em simultâneo com TEX EM CORES poderia resultar no insucesso de ambas.
[18] Somente Nathan Never não teve uma coleção pela editora Mythos.
[19] A Mythos possui no seu site o registo muito fiável para efetuar uma sondagem: os clientes da loja que efetuam as suas compras diretamente na Mythos. Um simples inquérito enviado para o email dos clientes questionando-os sobre que personagem Bonelli gostariam de ver nas bancas, formato, quantidade de páginas etc. seria uma forma bastante eficaz de recolher a informação para fundamentar a escolha. Como contrapartida para incentivar os clientes a responder oferecer uma revista a enviar em futura compra, (para não ter custos com o envio).

PS: Texto publicado no blogue do Tex em 14 de janeiro de 2018.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

ENTRELAÇADOS


Itália 1961, numa época em que a banda desenhada, conhecida neste país da Europa mediterrânica como fumetti`s, era a principal fonte de entretinimento, e os heróis mais populares eram Tex, da Edizioni Araldo, a atual Sergio Bonelli Editore, Il Piccolo Sceriffo da editora Torelli, Capitan Miki e Il Grande Blek, da Editoriale Dardo, surge Zagor! 


Criado por Sergio Bonelli, o filho daquele que ficaria conhecido como o patriarca da banda desenhada italiana, Gianluigi Bonelli, criador do personagem de maior sucesso nesse país, Tex Willer, e por Gallieno Ferri, este o criador gráfico. Ferri, que nos anos antecedentes tinha trabalhado quase exclusivamente para o mercado francês sobre o pseudónimo de Fergal, era praticamente um desconhecido no seu próprio país! Meses antes do lançamento de Zagor encontrou-se com Sergio no escritório deste, para lhe apresentar os seus trabalhos, com o objetivo de desenhar para a editora, e para o mercado italiano. Sergio, que assinava as suas histórias como Guido Nolitta, para que os leitores não o confundissem com o seu pai, ficou muitíssimo impressionado pela qualidade do jovem desenhador, decidindo utiliza-lo imediatamente, tendo-lhe entregue alguns argumentos de Giubba Rosa escritos pelo seu pai. Concluídas essas histórias, e estando todos os argumentistas da editora ocupados, não restou outra opção ao também jovem editor, senão criar ele próprio um herói para esse propósito! Este foi o ponto de partida para a existência de Zagor, cujo verdadeiro nome é Patrick Wilding, mas também é conhecido como “O Rei de Darkood”, “Zagor-te-nay”, ou “O Espirito da Machadinha”.

 

Nolitta traçou objetivos muito claros para o novo personagem! As aventuras deste herói seriam dedicadas a uma faixa de leitores mais jovens que os leitores de Tex, sem no entanto caírem na infantilidade. Teriam como principal cenário a floresta imaginária de Darkwood e decorreriam na América na primeira metade do século XIX. Mas Nolitta pretendia algo mais do que um novo herói do Oeste Americano e ficar amarrado às típicas histórias do faroeste! Para contornar esta limitação, incluía temas intemporais nas suas tramas, e alternava ou sobrepunha o género narrativo ao longo das histórias, deambulando pela ficção científica, comédia, horror, ou drama, com extrema facilidade. Esta capacidade de “navegar” entre géneros ficaria como a sua imagem de marca no personagem! Delineados os princípios fundamentais do novo herói, Sergio efetuou alguns esboços a que Ferri acrescentou algumas sugestões para a composição final, como as riscas horizontais nas calças, ou o símbolo de uma águia negra na camiseta. Para a fisionomia basearam-se, inicialmente, em Robert Taylor, um dos atores Norte Americanos mais populares na época. Mas essa imagem não vai durar muito! Ferri, que era jovem, atlético, e bem-parecido, passadas poucas histórias começa a desenhar Zagor utilizando ele próprio como modelo, como já havia feito com Thunder Jack. Faltava o nome! Em 1961, com algumas histórias já prontas, o novo herói ainda não tinha sido batizado! Ajax era uma ideia que Sergio tinha em mente! A inclusão do “X” tornava-o apelativo! Na época era usual incluir nos nomes dos heróis “X” ou “K”, porém, a descoberta que Ajax era também o nome de um detergente vai tornar esta opção inviável. Sergio resolveu a questão homenageando dois outros heróis, conjugando duas silabas dos seus nomes: ZA, proveniente de “Za-la-mort”, famoso herói do cinema mudo italiano e GOR, de Flash Gordon, um dos heróis da sua infância. Assim surgiu Zagor em 15 de Junho 1961, um herói que, segundo o criador, é uma mistura de Tarzan, de Fantasma, e de “Il Grande Blek”.

As necessidades da pequena editora que possuía uma estrutura familiar e pouco
profissional, que exigiam a Sergio o desempenho de múltiplas tarefas, vão força-lo a abandonar Zagor logo após os primeiros números
1. O primeiro a substituí-lo foi o próprio Ferri que possuía alguma experiencia como argumentista resultante, essencialmente, dos trabalhos efetuados para o mercado francês. O talentoso desenhador vai manter a dupla função de ser responsável pelo argumento e arte, por vários meses, até ser, também ele, substituído pelo pai de Sergio, Gianluigi. “La lancia spezzata”2, publicado em Junho de 1962, marca essa transição! Nos longos meses que Ferri foi o único responsável pela produção das histórias, Bonelli filho dirigia a editora durante o horário normal de funcionamento e, nos tempos livres, elaborava um esboço do enredo. Ferri desenvolvia o argumento baseando-se no esboço e desenhava toda a aventura, sendo posteriormente supervisionado pelo editor, que retocava diálogos e outros pormenores, garantido desta forma a homogeneidade do personagem.

 

As cerca de 80 tiras que compunham cada edição, correspondem a cerca de 27 pranchas
GIAN LUIGI BONELLI
no atual formato Bonelli! Texto e desenho que teriam que estar prontos a cada quinzena devido à periodicidade das publicações! Um trabalho descomunal, que exigia um esforço titânico e impossível de manter a longo prazo, sem perda de qualidade! Basta pensar que a maioria dos atuais desenhadores produzem apenas entre dez e quinze pranchas mensais, sem se preocuparem com o texto. Para aliviar Ferri, mas também Sergio, Gianluigi Bonelli vai escrever todas as aventuras do personagem por quase um ano, acumulando com as cerca de 1100 pranchas que escreveu para Tex, durante os anos 1962 e 1963.


Nolitta só vai regressar à série com “Tragedia nella palude”, o número 13 da segunda série publicado em 26 de Maio de 1963. Após o regresso e durante dezassete anos, até ao número 182 da atual série3, “Magia senza tempo”, publicada em Setembro de 1980, Nolitta vai escrever a grande maioria das histórias, criando algumas das mais belas aventuras do herói, que ainda hoje permanecem na memória dos fãs. O afastamento de Sergio ficou-se a dever, mais uma vez, às necessidades da editora! Primeiro para alternar com o seu pai, que não era mais um jovem, escrevendo histórias de Tex, depois para se dedicar a Mister No, personagem que criou em 1975, também com Ferri, e  por ultimo, para se dedicar integralmente à administração da empresa.

 

Em pouco mais de quarenta páginas Nolitta “prendeu-me” a Zagor! Numa época em que
ZAGOR Nº 6
não existiam computadores, consolas de jogos, e muito menos internet, e a televisão ainda não tinha saído da “pré-história”, não permitindo gravações ou o recomeçar de um programa, e dispondo apenas dois canais: Um deles, o segundo canal da RTP, encontrando-se a maior parte do tempo fechado, ou a transmitir desporto! A BD era assim o passatempo da grande maioria das crianças e adolescentes, com uma enorme quantidade de títulos nas papelarias todas as semanas. Foi nessa época que descobri o personagem, nos finais da década de setenta, início dos anos oitenta do seculo passado, no sexto número da coleção não autorizada da Portugal Press, intitulado de “Hora zero”
4. A complexidade do argumento, o mistério provocado pelos estranhos eventos ocorridos na floresta, a referência ao “velho” que apenas aparece na capa, a comicidade das situações em que Chico se vê envolvido, a ficção e os anacronismos presentes, como a existência de eletricidade e misseis no século XIX, e pela acção: A edição inicia-se com Zagor a lutar com uns misteriosos soldados na floresta e concluiu-se com o herói a ser descoberto no interior da montanha onde se infiltrou para descobrir os mistérios do “Olho do Diabo”. Tudo isto em apenas quarenta e oito páginas! Uma pequena parte do segundo encontro com Hellingen.

 

Após a saída de Nolitta, Zagor vai atravessar a pior fase da sua já longa existência. Fase que em Itália é referenciada como “a década perdida”5! Este período correu tão mal ao ponto de se ter equacionado o cancelamento da publicação, o que não deixa de ser incompreensível! Como é que uma revista que vendia mais de duas centenas de milhares de exemplares por mês, só sendo ultrapassada por Tex, cai drasticamente nas suas vendas tendo, unicamente, como alteração de fundo, a saída de um escritor? È verdade que neste ciclo não foi só Zagor que perdeu leitores! Foi uma época extremamente negativa para a BD mundial devido, essencialmente, ao surgimento de outras formas de entretenimento, como as primeiras consolas de jogos. A equipa de desenhadores, tal como na fase anterior, manteve Ferri e Franco Donatelli como responsáveis pelo desenho na maioria das aventuras. Na criação dos roteiros transitaram Decio Canzio e Alfredo Castelli, que não eram propriamente novatos, (pertenciam ao staff da publicação desde 1977), a que se juntaram Ade Capone, Daniele Nicolai, Giorgio Pellizzari, Moreno Burattini e, principalmente, Marcello Toninelli que se tornaria o principal argumentista da série tendo escrito a maioria das edições publicadas entre 1983 e 1991. A verdade é que as histórias perderam o encanto! A diversidade de géneros presente em cada a aventura exigia o doseamento adequado para não cair na infantilidade ou em excessos de fantasia, algo que Nolitta tinha conseguido com mestria na maioria das suas histórias, e que neste período, os escritores parecem não ter conseguido conciliar. 

 

Intitulada de “A segunda odisseia Americana”, uma mega saga de trinta e uma edições, que incluiu diversas aventuras, e que envolveu praticamente toda a equipa de desenhadores e escritores da época, vai devolver o carisma perdido a Zagor! Nesse arco de histórias, “O espirito da Machadinha” e Chico são retirados do seu “habitat” e iniciam uma longa peregrinação a diversos países da América do Norte, replicando um pouco, mas numa escala muito maior, a história clássica de Nolitta e Ferri publicada em 1972. “L`esloratore
ZAGOR Nº 345 ITALIANO
scomparso”
6, publicada em Abril de 1994, uma das primeiras aventuras do “Rei de Darkwood” escritas por Boselli, para além de ser o início da saga, é também considerada um marco na vida editorial do personagem. O ponto de viragem numa publicação que esteve para ser cancelada e que devolveu o fascínio ao herói, e às suas aventuras! Em pouco tempo as histórias retomaram o interesse perdido, graças principalmente à dupla de escritores, Burattini e Boselli, que efetuaram um trabalho descomunal de pesquisa, juntamente com os desenhadores envolvidos, consultando todo o tipo de informações para tornarem mais credíveis, paisagens, ambientes, povos, vestuário, povoações etc. Este duo parece ter redescoberto a formula “Nolittiana”! Voltaram as histórias longas, a mistura de realidade e ficção, e a utilização dos diversos géneros nas proporções adequadas, que tornaram este personagem único e, que os seus fãs tanto apreciam. Mas não só! Foram introduzidas na série várias personagens de relevo, como Nat Murdo, Honest Joe ou Marie Laveau. A equipa de desenhadores foi reforçada com desenhadores muito talentosos, como Carlo Raffaele Marcello, Raffaele Della Monica ou Alessandro Chiarolla que se juntaram a Mauro Laurenti, Stefano Andreucci, ou Gaetano Cassaro, que tinham entrado nos últimos anos. Quando Zagor regressa a Darkwood, no número 376 da coleção, o espectro do cancelamento tinha desaparecido definitivamente!

 

Os números de Zagor são realmente impressionantes! Publicado ininterruptamente por
EDIÇÃO AMERICANA DE
 " A AREIA É VERMELHA"
várias editoras há mais de meio século em Itália, alvo de várias coleções, extras e especiais, são muitas centenas de aventuras e edições, nas diversas coleções, ultrapassando as setenta mil páginas! No país de origem, onde as vendas atingem cerca de 35000 cópias mensais, ainda que bem distantes dos tempos áureos em que ultrapassavam as duzentas mil cópias, mas bastante aceitáveis tendo em conta a realidade atual da BD, Zagor continua a ter um publico bastante fiel, que se estende a diversos outros países onde é publicado, como a Sérvia, Croácia, Turquia, Grécia, ou Brasil. Foi também publicado e apreciado em diversos outros paises, possuidores de culturas muito diferenciadas, como a India, Dinamarca, Israel, Inglaterra ou França. Zagor teve também direito a uma breve passagem pela sétima arte sem no entanto atingir o sucesso protagonizado na BD. Nos anos setenta foram produzidos na Turquia três filmes com baixos orçamentos, e sem as devidas autorizações por parte da editora. Em Itália, “Noi, Zagor”, o documentário realizado por Riccardo Jacopino dedicado ao mundo de Zagor e aos seus criadores, esteve em exibição, no Outono de 2013, em cerca de duas centenas de salas de cinema. Com inicio em Fevereiro de 2012, e reproduzindo o sucesso de Tex na republicação das suas aventuras a cores em coleções publicadas com parcerias com dois dos maiores jornais italianos, La Repubblica e L`Espresso, as aventuras de Zagor foram também republicadas em coleções similares: As primeiras quinhentas edições da coleção mensal e todas edições do ZAGOR SPECIALE. Criando-se desta forma um novo produto capaz de conquistar, outros mercados como os E.U.A., país que começou a publicar recentemente o personagem, ou, outra gama de leitores, os que preferem as edições coloridas!

 


Mas afinal qual é a chave do sucesso de Zagor? A resposta a esta pergunta não é assim tão linear! Obviamente que as razões do sucesso serão as mais diversas, e algumas delas poderão, mesmo, parecer incompreensíveis. Afinal, quem poderia imaginar que um tipo com uma arma incomum, (uma machadinha feita com uma pedra), e uma aparência extravagante, (veste uma camiseta vermelha com uma águia ao peito), que se move na floresta como Tarzan, e vive isolado como o Fantasma, num meio onde tudo pode acontecer, como se fosse um portal para diferentes épocas, e que, quando se ausenta, vagueia não só por toda a América, mas também por outros continentes, em que as suas aventuras serpenteiam por uma miscelânea, e por vezes, aparentemente, inconciliáveis géneros narrativos, se tornaria um dos personagens mais adorados e duradouros da BD italiana, e que meio seculo depois da primeira aventura continuaria a ser publicado? Até o próprio Sergio Bonelli, criador literário do personagem, visionário, e o principal arquiteto da transição da simples BD de entretenimento popular, para um produto de dignidade cultural, responsável pelo sucesso de uma das mais importantes editoras a nível internacional, a SBE, teria muitas dificuldades em acreditar.

 

Para Buratinni uma das principais razões é o personagem manter-se fiel às suas raízes e
MORENO BURATINNI
as mudanças ocorridas terem sido graduais, quase impercetíveis, e essencialmente na narrativa e não no caracter. Com o curador e o principal escritor da atualidade, a narrativa tornou-se mais rápida, e o herói têm perceção diferente do leitor, desconhecendo factos, o que não acontecia com Nolitta, em que ambos tinham a mesma perceção da trama. Incluídas nessas alterações, a utilização frequente de flashbacks, de cruzamentos com personalidades históricas, como o presidente Jackson, o pirata Lafitte, Charles Darwin ou o filósofo Tocqueville, bem como, uma maior atenção à realidade. Outro segredo das aventuras de Zagor continuarem a ser muito interessantes, reside, também, segundo o escritor, na forma como se misturam todo o tipo de histórias, mantendo neste aspeto, a fórmula definida por Nolitta.

 

Sempre apreciei muito essa mistura de géneros! Essa característica é talvez a mais
ZAGOR Nº 1 RGE
importante nas histórias de Zagor! A que faz a diferença para todos os outros e que torna o personagem único! Após a leitura de “Hora zero” fiquei fã de “O espirito da machadinha”, tal como fiquei de Mister No quando li o primeiro número da Portugal Press! Passaram-se vários anos para conseguir ler uma história completa destes personagens, que tanto me fascinaram. Somente em 1985, quando o personagem começou a ser publicado pela RGE tive essa possibilidade! “O tesouro maldito”, apesar de ser uma história curta para os padrões “Zagorianos”, cerca de cem páginas, não deixa de ser um bom exemplo de uma aventura de Zagor. Uma caça ao tesouro que encaixa bem no género de aventura, mas é sem dúvida, também, de horror, de suspense, e parecendo quase impossível, de muito humor e drama. Como classificar uma história deste tipo? Um dos elementos do universo “Zagoriano” que permite combinar todas estas incongruências é a floresta de Darkwood que Nolitta criou com esse objetivo: Possibilitar todo o tipo de cenários e aventuras, sem grande preocupação com a realidade histórica, geográfica ou temporal, e cruzar ficção com qualquer uma dessas realidades, ou personalidades. Darkwood é assim a porta da fantasia, que proporciona a desenhadores e escritores um cenário criativo, facilmente adaptável a qualquer realidade ou situação.

 

Outro factor que muito contribui para o sucesso de Zagor são as personagens secundárias!
AMIGOS DE ZAGOR
Entre amigos e inimigos existem dezenas de personagens carismáticas à disposição dos escritores, que consoante o tipo de aventura são inseridas, sendo que apenas Chico acompanha, permanentemente, o protagonista em todas as histórias. Só para introduzir comicidade nas narrativas, em longas tiradas que ocupam dezenas de páginas, ou em pequenos episódios, em qualquer parte das histórias, todos eles com personalidades muito marcantes e diferenciadas, destacam-se, Trampy, Digging Bill, Drunky Duck, Batt Baterton, além do já mencionado Chico.

 

Também relacionado com o êxito da série está o vastíssimo leque de autores consagrados, argumentistas e desenhadores, que abrilhantaram as suas páginas: Guido Nolitta, G.L. Bonelli, Decio Canzio, Alfredo Castelli, Ade Capone, Mauro Boselli ou Moreno Burattini, escritores, e Franco Donatelli, Franco Bignotti, Marco Torricelli, Carlo Raffaele Marcello, Raffaele Della Monica, Maurizio Dotti ou Marco Verni, desenhadores, entre tantos outros, e claro, o criador gráfico, aquele que maior responsabilidade teve no sucesso do herói, Gallieno Ferri!

 

Inspirado pelos grandes autores clássicos dos anos 20, 30, do século passado, Alex
IMAGEM DE FERRI
Raymond, Phil Davis, Ray Moore e Milton Carniff, Ferri era um desenhador muito versátil, detentor de um traço muito detalhado e dinâmico, capaz de produzir desenhos muito expressivos aliados a uma enorme capacidade de execução. Essas características permitiram-lhe desenhar todo o tipo de aventuras nos mais diversificados ambientes, e em simultâneo, cumprir os apertadíssimos prazos a que estava sujeito, principalmente até 1967, época em que desenhou a quase totalidade das pranchas, com a agravante de ter escrito, também, diversas aventuras, na fase em que Nolitta se afastou devido às necessidades da editora.

 

Durante o período mais conturbado da série, a famigerada “década perdida”, fase em que a série esteve muito próxima do cancelamento, Ferri juntamente com Donatelli foram os grandes baluartes, os grandes responsáveis por preservarem a identidade do personagem, e por manterem os fãs interessados, pois o tipo de aventuras afastou-se da fórmula idealizada por Nolitta6.

 

Nas duas últimas décadas, não obstante o desenhador ter visto diminuir o número de trabalhos publicados, ainda foi o desenhador com maior número de pranchas publicadas em cinco desses anos, tendo o ultimo ocorrido em 2007, com 376 páginas.

 

As capas pelas quais Ferri foi responsável desde o primeiro número é outro aspeto onde salta à vista a importância do desenhador no sucesso da série. Com objectos centrais bem detalhados, contrastando com cenários rabiscados, preenchidos com sombras ou penumbras, as suas capas eram apelativas, impactantes e diversificadas, devido a uma utilização de cores vivas, e a uma escolha criteriosa das cenas, com uma frequente variação de ângulos e enquadramentos para evitar repetições.

 

Mas não é necessário analisar, detalhadamente, o seu percurso profissional, para perceber
Sergio Bonelli e Gallieno Ferri
a profundidade da ligação deste autor, a Zagor. O próprio a declarou em diversas ocasiões! Questionado sobre os melhores momentos da sua carreira de desenhador, o artista genovês, referiu três momentos “Zagorianos”: O primeiro encontro com Sergio Bonelli no longínquo ano de 1960 que lhe permitiu desenhar Zagor, e que, reconheceu, lhe mudou a vida. O segundo momento, referiu-se a um época, ao período clássico da série, e para as aventuras criadas na década de setenta, que considerava graficamente melhor concebidas. Por último, a enorme satisfação que teve em ver publicado a cores, praticamente todas as aventuras do herói na Collezione Storica a Colori.

 

Se os números de Zagor são deveras impressionantes para um personagem de BD, os de
PRANCHA DE FERRI
Gallieno Ferri parecem impossíveis para um ser humano. Ao longo da sua carreira de desenhador produziu mais de 20000 pranchas. O ano mais produtivo foi 1962 em que viu publicadas 645, tendo ultrapassado a produção anual de meio milhar, em mais doze ocasiões. É também o desenhador de Zagor mais publicado em 25 anos da sua existência, e o autor da SBE com a ligação mais longa a um único personagem. Produziu ainda todas as capas desde que adotado o formato atual e a quase totalidade das quatro séries de tiras
7, ultrapassando a barreira de um milhar.

 


Com 87 anos de vida e apesar das limitações inerentes à avançada idade, principalmente ao nível da destreza de movimentos e da visão, capacidades indispensáveis para o desempenho da sua profissão, Ferri continuava apaixonado pelo seu trabalho, orgulhoso da sua obra, dando mostras de não pensar em reformar-se, desenhando as capas para todas as séries de Zagor. Num artigo publicado em 2013 é referido que ainda desenhava cerca de duzentas páginas por ano, (marca impressionante para qualquer desenhador, de qualquer idade), e que continuava a ser um prazer desenhar na sua prancheta, da qual não conseguia manter-se afastado, nem mesmo no período de férias em Recco onde vivia. Amante do mar  e dos desportos aquáticos e náuticos, frequentava a praia ou dava um passeio, mas após algumas horas acabava sempre por se sentar na sua mesa de desenho, onde se sentia verdadeiramente feliz.

 

Falecido a 02 de Abril em Génova, cidade onde nasceu, Gallieno Ferri foi um extraordinário desenhador que à muito era considerado uma lenda da BD Italiana! Um exemplo de vitalidade e de vida, para todos nós, e uma fonte de inspiração para outras gerações de artistas, pela paixão com que exercia o seu trabalho, e pela dedicação a Zagor, personagem a que se manteve continuamente ligado desde a sua criação, numa união de cinquenta e cinco anos, que só seria quebrada por algo inevitável, como a morte. Artistas como Moreno Burattini, cuja história é sobejamente conhecida, de como este apaixonado leitor se tornou, também, apaixonado escritor principal das série, ou, o já apelidado de novo Ferri, igualmente fã de Zagor, Marco Verni, que quando criança ouvia de seus pais: “estude meu filho, que Zagor não vai colocar comida a sua mesa”. Verni seguiu o seu sonho de criança mesmo não contando com o apoio inicial dos pais, tornando-se, atualmente, um dos desenhadores mais apreciados, sendo o seu traço muito semelhante ao de Ferri, do qual é admirador confesso. Na área da música, o roqueiro Graziano Romani é outra das personalidades, tal como inúmeras outras neste país com grande apreço pela BD, que se sente influenciada pelas aventuras deste personagem, e pelo mestre Ferri. Em 2009 produziu um álbum com a capa do artista genovês dedicado a este herói e, recentemente, escreveu o livro, “The art of Ferri”, dedicado ao desenhador.

 

Como herança para todos os amantes da banda desenhada Ferri deixa dezenas de histórias, centenas de capas e milhares de pranchas, que fizeram sonhar, um pouco por todo o mundo, e ao longo de várias décadas, milhares de crianças e jovens, mas também adultos, porque as aventuras deste herói foram concebidas para todas as idades. Mas mais importante que a quantidade é a qualidade, e nesse aspecto, o seu legado é também riquíssimo, pois inclue algumas das mais belas aventuras do personagem. Histórias intemporais, como, “Oceano”, “A marcha do desespero”, “Kandrax, o mago”, “Dharma, a bruxa”, ou “O retorno do vampiro”, que eu, tal como a grande maioria dos fãs, sempre vou recordar.

 

NOTA FINAL:

 

O sucesso do personagem e a carreira do desenhador, estão de tal modo interligados, que não é possível atribui-lo a um, sem incluir o outro. O curioso é que tudo começou com uma simples entrevista para conseguir um trabalho! Incrível como determinados eventos, aparentemente triviais e sem nenhuma importância, se revelam, afinal, marcantes, decisivos e influentes para toda uma vida! A vida e a carreira de Gallieno Ferri foi vítima de um desses episódios: O encontro com Sergio Bonelli no seu escritório em 1960!  Uma entrevista para um emprego como tantas outras a que o desenhador deve ter ido, tal como qualquer um de nós. Fosse o destino, acaso ou coincidência, o que é um facto, é que esse simples evento, esse banal acontecimento, foi  determinante para a carreira do desenhador, para o “nascimento” do personagem, e para a história de ambos tal como as conhecemos hoje.

 

LEGENDA:

 

O sétimo número da primeira série de “striccias”, “La morte invisibile” publicado em 15 de Setembro de 1961 já foi escrito por Gallieno Ferri. As publicações na época possuíam o formato de talões de cheques constituídas de uma tira por página. Zagor teve 4 séries neste formato com 80 páginas por edição totalizando 239 edições, publicadas entre 15 de Junho de 1961 e 10 de Novembro de 1970.

2 O Nº 27 da primeira série de “striccias”.

3 O Nº 182 de ZAGOR apresenta na lombada o Nº 233 correspondente ao número ZENITH. Em Julho de 1965, o número 52 da revista ZENITH GIGANTE inicia a reedição das aventuras de Zagor, desta vez com 3 tiras por página, no famigerado formato Bonelli, naquele que se tornaria o primeiro número da atual coleção do personagem. Zagor vai monopolizar esta publicação a partir desse número, mantendo, no entanto, na lombada, a numeração da coleção ZENITH, que é desfasada de 51 números da numeração de ZAGOR. Esta coleção vai republicar as aventuras das quatro séries até ao número 68, “Lo spettro!”, em Fevereiro de 1971, publicando posteriormente apenas histórias inéditas. As reedições da coleção mensal apenas apresentam o numero ZAGOR.

 

4 “Hora Zero”, aventura de Guido Nolitta e Gallieno Ferri publicada no ZAGOR italiano números 107 a 109 em 1974. No Brasil foi publicada apenas por uma única vez em 1987 nos números 30 e 31 da coleção ZAGOR da Globo.

 

Apesar de qualificada como a pior fase do personagem em Itália, nós Portugueses e Brasileiros temos muita dificuldade em avalia-la, pois nunca tivemos oportunidade de acompanhar as aventuras sequencialmente, e diversas histórias continuam inéditas no Brasil. Das coleções publicadas no Brasil apenas ZAGOR ESPECIAL RECORD tinha como objetivo publicar todas as histórias cronologicamente, tendo sido cancelada no sétimo número sem ter atingido essa fase.

 

6 ZAGOR Italiano Nº 345. No Brasil foi publicado pela Mythos no Nº 11 de ZAGOR EXTRA, em Fevereiro de 2005.

 

7 O conceituado blogue DIMEWEB atribui a Ferri 233, das 239 capas que compõem as 4 séries de “striccias”.

 

 

BIOGRAFIA DE GALIENNO FERRI:


Nascido em Genova, Itália, em 21 de Março de 1929, Gallieno Ferri é um dos desenhadores mais prestigiados, num dos países onde a BD têm maior aceitação a nivel mundial. No início da sua vida profissional, e antes de se dedicar à nona arte, trabalhou alguns anos como agrimensor, tendo começado a sua carreira de desenhador quase por acaso, após ter sido selecionado num concurso para novos talentos promovido pela editora de Giovanni De Leo. Para essa mesma editora, com o argumento do próprio De Leo e, utilizando o pseudónimo de Fergal, Ferri vai desenhar em 1949, o seu primeiro personagem: Il Fantasma Verde. Seguem-se Piuma Rossa, um western, e Maskar, personagem criado em conjunto com De Leo para substituir Fantax. Série, que apesar do enorme sucesso obtido, devido à censura vigente e por ser excessivamente violenta, teve de ser cancelada! Maskar não passava de uma “cópia” do Fantax expurgada dos excessos de violência que motivaram o cancelamento!

Durante o periodo 1949 e 1951, além do trabalho normal na editora, Ferri envolve-se noutros projetos com De Leo, como Big Bill, Le Casseur e Robin Hood, publicações licenciadas pela francesa de Pierre Mouchott, a S.E.R.

Entre 1952 e 1953, mais uma vez com De Leo, e numa co-produção com Mouchott, criam Thunder Jack. Posteriormente, após a interrupção da série em Itália, Ferri vai continuar a desenhar o personagem apenas para o mercado francês. Nessa série o desenhador vai adotar, pela primeira vez, as próprias feições para a composição do protagonista. Processo que vai repetir mais tarde com Zagor! Como reconhecimento do seu trabalho em França, Ferri é convidado por Mouchott a criar outros personagens especificamente para o mercado gaulês e para a S.E.R.. Surgem então, fruto dessa ligação, Kid Colorado, Jim Puma e Tom Tom, este ultimo publicado mais tarde, em Itália, pela De Leo.

No final da década de cinquenta, do seculo passado, o desenhador decide voltar a trabalhar, também, para o mercado italiano, iniciando a colaboração com a redação do Il Vittorioso, desenhando diversas histórias de Capitan Walter e de Jolly.

Em 1960 conhece Sergio Bonelli, o jovem editor da Edizioni Araldo, a atual Sergio Bonelli Editore, começando por desenhar alguns episódios de Giubba Rosa escritos pelo pai de Sergio, Gianluigi Bonelli. Após a conclusão desses trabalhos, e não existindo outros argumentos disponíveis, Nolitta cria, juntamente com Ferri, um personagem especificamente para o desenhador: Zagor!

Em 1975, novamente com Guido Nolitta, criam Mister No. Ferri desenha apenas a história inicial e as primeiras cento e quinze capas da série.

Devido ao enorme sucesso de Chico, em 1979 é lançada uma nova coleção dedicada a este personagem: CICO STORY. Nolitta e Ferri são os responsáveis pelos primeiros cinco números da coleção.

Entre 1998 e 2000 Ferri desenha as capas das três últimas edições especiais de “Il Comandante Mark”.

A sua carreira de desenhador ficaria definitivamente ligada ao primeiro encontro com Sergio Bonelli em 1960, e ao personagem por eles criado, Zagor! Após a publicação do primeiro número em 1961, até ao seu falecimento em 02 de Abril de 2016, decorridos cerca de cinquenta e cinco anos, Ferri manteve-se a desenhar o “O rei de Darkwood”, produzindo mais de cento e vinte histórias, em mais de vinte mil pranchas e a quase totalidade das capas, de todas as séries, ultrapassando o milhar de unidades.

Com 87 anos de vida, Gallieno Ferri faleceu em Génova, cidade natal, em 02 de Abril de 2016.

 

PRINCIPAIS REFERENCIAS:
http://thebonelliemporium.blogspot.pt/2016/04/ciao-ferri.html

Zagor 25 anos no Brasil, edição especial comemorativa

Cinquenta anos de aventuras, por Moreno Burattini


PS: Texto publicado na revista Clube Tex Portugal Nº 5 em Dezembro de 2016