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domingo, 3 de abril de 2016

CIAO FERRI

Dois de Abril de 2016 foi um dia muito triste para os amantes da BD! Gallieno Ferri, um dos desenhadores com maior prestigio em Itália, e uma referência para inúmeras gerações de artistas, num país onde a BD é muito mais do que uma forma de entretenimento, faleceu em Génova, a mesma cidade onde nasceu em 21 de Março de 1929, à oitenta e sete anos atrás.

No inicio da sua vida profissional e antes antes de se dedicar à nona arte, trabalhou alguns anos como agrimensor, tendo começado a sua carreira de desenhador quase por acaso, após ter sido seleccionado num concurso para novos talentos promovido pela editora de Giovanni De Leo. Para essa mesma editora, com o argumento do próprio De Leo e com o pseudónimo de Fergal, Ferri vai desenhar em 1949, o seu primeiro personagem: Il Fantasma Verde. Seguem-se Piuma Rossa, um western, e Maskar, personagem criado em conjunto com De Leo para substituir Fantax. Série, que apesar do enorme sucesso obtido, por ser violenta e, devido à censura existente na época, teve de ser cancelada! Maskar não passava de uma “cópia” do Fantax expurgada dos excessos de violência que motivaram o cancelamento!

Durante o período 1949 e 1951, além do trabalho normal na editora, Ferri envolve-se noutros projectos com De Leo, como Big Bill, Le Casseur e Robin Hood, publicações licenciadas pela francesa de Pierre Mouchtt, a S.E.R.

Entre 1952 e 1953, mais uma vez com De Leo, e numa coprodução com Mouchott, criam Thunder Jack. Posteriormente, após a interrupção da série em Itália, Ferri vai continuar a desenhar o personagem apenas para o mercado francês. Nessa série o desenhador vai adotar, pela primeira vez, as próprias feições para a composição do protagonista. Processo que vai repetir mais tarde com Zagor! Como reconhecimento do seu trabalho em França, Ferri é convidado por Mouchott a criar outros personagens especificamente para o mercado gaulês e para a S.E.R.. Surgem então, fruto dessa ligação, Kid Colorado, Jim Puma e Tom Tom. Este ultimo publicado mais tarde em Itália pela De Leo.

No final da década de cinquenta, do seculo passado, o desenhador decide voltar a trabalhar, também, para o mercado italiano, iniciando a colaboração com a redação do Il Vittorioso, desenhando diversas histórias de Capitan Walter e de Jolly.

SERGIO BONELLI E GALLIENO FERRI
Em 1960 conhece Sergio Bonelli, o então jovem editor da Edizioni Araldo, a actual Sergio Bonelli Editore, que lhe reconhece enorme talento, entregando-lhe a responsabilidade de desenhar alguns episódios de Giubba Rosa escritos pelo seu pai, Gianluigi Bonelli. Após a conclusão desses trabalhos, e não existindo outros argumentos disponíveis, Nolitta que pretendia manter o extraordinário desenhador, cria um personagem especificamente para ele: Zagor!

Em 1975, novamente com Guido Nolitta, criam Mister No, desenhando apenas a história inicial e as primeiras 115 capas da série.

MISTER NO E ZAGOR, OS DOIS PERSONAGENS CRIADOS
 PELA DUPLA NOLITTA FERRI
Devido ao sucesso de Chico, em 1979 é lançada uma nova colecção dedicada a este personagem, CICO STORY. Nolitta e Ferri são os responsáveis pelos primeiros cinco números da coleção!

Entre 1998 e 2000 Ferri desenha as capas das ultimas 3 edições especiais de “Il Comandante Mark”.

PRANCHA DE ZAGOR 565/566 PUBLICADOS
 EM ITÁLIA EM SET12
A sua carreira de desenhador ficaria definitivamente ligada ao encontro com Sergio Bonelli no longínquo ano de 1960 e ao personagem por eles criado, Zagor! Após a publicação do primeiro número em 1961, até aos dias de hoje, decorridos cerca de cinquenta e cinco anos, Ferri manteve-se a desenhar o personagem, tendo produzido todas as capas de todas as séries, ultrapassando o milhar, desenhado mais de cento e vinte histórias em mais de vinte mil pranchas. Esta ligação de quase cinquenta e cinco anos a um personagem é muito provavelmente, caso único na história da BD mundial.

EDIÇÃO ESPECIAL DA SBE
A MARCHA DO DESESPERO
Inspirado pelos grandes autores clássicos dos anos 20, 30 do século passado, Alex Raymond, Phil Davis, Ray Moore e Milton Carniff, Ferri era um desenhador muito versátil, capaz de produzir desenhos muito expressivos aliados a uma enorme capacidade de execução. Estas duas características do seu trabalho, rapidez e versatilidade, justificam, só por si, a magnitude dos números apresentados. Mas mais do que números, o seu nome está escrito em algumas das mais belas aventuras do personagem! Aquelas que os fãs lembrarão para sempre: “Oceano”, “A marcha do desespero”, “Kandrax, o mago”, “Dharma, a bruxa”, ou “O retorno do vampiro”, entre muitas outras.


Por se manter activo numa idade tão avançada e até ao seu falecimento, numa profissão extremamente exigente ao nível da visão e destreza de movimentos, por ser uma inspiração para os jovens desenhadores, por ter feito sonhar com a sua arte, inúmeras gerações de leitores um pouco por todo mundo, Gallieno Ferri é um exemplo de vitalidade, dedicação, paixão, e acima, de tudo, de vida, que a sua obra perpetuará para sempre. Obrigado Ferri.

REFERENCIAS:

http://dimeweb.blogspot.pt/2016/01/zagor-anno-per-anno.html
http://www.ubcfumetti.com/data/ferri.htm
http://www.sergiobonelli.it/gallery/news/39937/Addio--Maestro-Ferri-.html

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O LIMITE DA TOLERÂNCIA

PIB BRASILEIRO - 2015 ESTIMATIVA FMI
2015 Foi um ano horrível para o povo brasileiro! Após diversos anos de crescimento económico elevado, em média anual de 4,4% no período de 2004 a 2011, o Brasil entrou em recessão no final de 2014, como resultado de uma acumulação de más politicas internas. Os indicadores económicos foram sucessivamente revistos em baixa ao longo de 2015, por diversas entidades, entre as quais a Standard & Poor`s, que perspetivou no final desse ano, queda de 3,2% para 2015, e de 2% para 2016. Previsões confirmadas pelo governo brasileiro em Novembro último, reafirmando esperar fechar o ano com uma queda do PIB de 3,1%. O pior resultado dos últimos 25 anos! O último ano em que o PIB brasileiro sofreu uma queda superior a 3% foi em 1990, com 4,35%! Parece inevitável que a recessão será muito mais profunda e duradoura que o inicialmente esperado. Os brasileiros já estão a sofrer o impacto através de uma inflação elevada em serviços e bens essenciais, que deve superar os dois dígitos também em 2016, na desvalorização do real, no aumento do desemprego, nas elevadas taxas de juro e na perda de poder de compra.

COLEÇÃO DE MOEDAS
Colecionismo é um fenómeno muito interessante! O que é que move uma pessoa adulta, bem formada, a colecionar, por exemplo, pacotes de açúcar? Ou miniaturas de automóveis? Será uma obsessão? Paixão? Vicio? O homem pré-histórico já guardava artefactos necessários à sua vida quotidiana, mas esse ajuntamento de objetos, tornava-o colecionador? As opiniões divergem, os arqueólogos atribuem esse hábito de guardar os artefactos à necessidade de sobrevivência. Não obstante as divergências de opinião, é consensual a ideia da existência do colecionismo na época anterior a Cristo, em que o imperador Caio Júlio César, governante romano entre 69 A.C. e 44 A.C, já era, historicamente comprovado, um colecionador fascinado pela arte grega. Coleciona-se principalmente por prazer, por diversão, mas também pode ser, por investimento. Como as coleções de selos, de moedas ou as de quadros! Tudo é colecionável, depende da motivação e do interesse do colecionador. Além das coleções mais tradicionais já referidas, as mais conhecidas são as de banda desenhada, postais, cromos, ou discos de vinil. Algumas coleções recebem nomes específicos como a de moedas - numismática, selos – filatelia, ou livros - bibliofilia. Em alguns casos o colecionismo é muito mais do que um prazer, um passatempo, ou mesmo um investimento. Colecionar pode ser enriquecedor na aquisição de conhecimentos ao nível das artes, geografia ou história, como na filatelia temática ou na numismática. As tarefas associadas ao ato de colecionar acabam por proporcionar benefícios aos colecionadores, desenvolvendo-lhe capacidades de observação, de raciocínio, de análise entre outros, tornando-os indivíduos mais organizados.

CADERNETA DE CROMOS
MUNDIAL DE FUTEBOL 1982
Desde muito cedo me interessei pelo colecionismo! As minhas primeiras coleções foram de cromos e ainda me recordo da última coleção que completei: Mundial de futebol de 1982. Mas o que realmente me interessava nessa época era a BD! Nos finais dos anos setenta do século passado lia praticamente tudo o que conseguia arranjar, quer através das compras, pouquíssimas, quer através de trocas ou empréstimos, muito vulgares na época. Mas isso só não me satisfazia! Gostava de ter as revistas impecáveis e as trocas ou empréstimos não me davam essa garantia! Pelo que muito cedo decidi comprar e guardar, iniciando desta forma a minha coleção, que continua a “engordar” até aos dias de hoje, passados mais de três décadas. 


TEX EDIÇÃO BRASILEIRA

Como a grande maioria das pessoas não possuo recursos financeiros ilimitados, pelo que, infelizmente, tive de fazer opções. Atualmente apenas coleciono as edições brasileiras de Tex e Zagor! Parece pouco mas não é! Basta pensar que só Tex têm dez coleções em publicação, a que acrescem as duas de Zagor. TEX OURO (TXO), TEX EDIÇÃO HISTÓRICA (TEH), TEX COLECÇÃO (TXC), TEX EM CORES1 (TEC) E TEX GIGANTE EM CORES publicam histórias já publicadas anteriormente em outras coleções, que acrescentam apenas algumas particularidades, como as capas ou matérias inéditas, novos formatos, ou a colorização.


Então, se o manter destas coleções é muito dispendioso, e se quase metade delas são repetições de outras, que já possuo, o que é que me motiva a mantê-las?

Ser colecionador é ser um pouco irracional! Irracional no sentido de fazer determinadas compras que a maioria não compreende. Principalmente em situações de grave crise económica, como a que o Brasil atravessa, e a que Portugal têm sentido nos últimos anos. E se gastar tanto dinheiro em revistas já é incompreensível para muitos, fazê-lo em revistas cujas aventuras já li, e que possuo em outras publicações, mais inexplicável é! Não é por considerar um investimento! Para esse fim existem outros tipos de produtos que considero mais adequados! A única explicação que encontro é o prazer de possuir tudo o que for publicado do personagem no Brasil. Objetivo a que me propus há muitos anos atrás. Como agravante o facto de não ler todas as republicações, apenas aventuras de que gostei particularmente ou quando não tenho outras opções. Deste modo é normal passarem-se largos meses sem ler nenhuma das coleções de republicações! A última encomenda que recebi do Brasil apenas me trouxe sete edições originais, pelo que rapidamente foram “devoradas”. Voltei-me assim para os TXO 78 e 79, com excelentes capas cartonadas, muito bonitas, mas com um preço extremamente elevado. Compensa pela apresentação e pelo facto de serem histórias completas! Pensei eu antes de folhear a revista, mas rapidamente mudei de ideia ao fazê-lo.

PÁGINAS 40 E 41 DE TEX OURO 78 TÊM UMA IMPRESSÃO TÃO CARREGADA QUE DESTRÓI COMPLETAMENTE A ARTE DO DESENHADOR.
Que porcaria! Como é possível colocarem revistas nestas condições à venda e com um preço tão elevado? Será que a editora não faz uma prova antes de enviar o material para a impressão? E o controlo de qualidade? Não funciona ou não existe? O que é que adianta dotar a revista com um excelente capa se depois o miolo se apresenta com uma impressão deplorável? Mais incompreensível se torna por os responsáveis da editora serem Helcio de Carvalho e Dorival Vitor Lopes! Pessoas com um largo passado ligado à BD, amantes da nona arte aos quais a BD brasileira muito deve nas últimas décadas! Uma história de BD é uma novela gráfica em que o texto e o desenho são igualmente importantes! Muito raramente uma aventura é considerada uma excelente história só por ter um excelente texto ou desenho. Como é que a editora espera conquistar novos leitores se destrói completamente cinquenta por cento dos atrativos da publicação?

PÁGINAS DE TXO 79, A MESMA IMPRESSÃO CARREGADA DE TXO 78. SENÃO EXISTISSE INFORMAÇÃO NO CARTUCHO DA 1ª VINHETA NINGUÉM ACREDITARIA QUE A AÇÃO DECORRIA NUMA MANHÃ.
ALMANAQUE TEX 32
A Mythos assumiu a publicação de Tex no Brasil em Janeiro de 1999 sucedendo à Globo, mantendo a numeração das coleções existentes em respeito pelo personagem e pelos leitores e em apenas dois meses consegue publicar a sua primeira coleção: TEX GIGANTE. Com cinquenta anos de histórias do personagem à disposição a editora decide apostar em força e, ao longo dos anos, os títulos vão chegando ao mercado. Alguns deles entretanto cancelados, como TEX ESPECIAL DE FÉRIAS, TEX E OS AVENTUREIROS e OS GRANDES CLÁSSICOS TEX (OGCT). Em minha opinião a pior coleção lançada pela editora pois considero-a uma reedição desordenada TEH! Em Maio de 2007 com a publicação do ALMANAQUE TEX 32 a editora cumpre um dos objetivos que se tinha proposto: publicar todas as histórias do personagem que se mantinham inéditas. Passados desassete anos, fruto da existência das inúmeras coleções que publicam histórias das diversas fases do herói, a Mythos já publicou pelo menos por uma vez, 99%2 das aventuras de Tex Willer. Deste modo, o colecionador fiel a todas as coleções que a editora colocou no mercado, se as mesclar, dispõe da quase totalidade das aventuras publicadas em quase sessenta e oito anos de existência. É obra!

Apesar de considerar globalmente positivo o trabalho da editora não consegui ficar indiferente à péssima qualidade de TXO 78 e 79, pelo que decidi verificar as outras coleções, esperançado que se tratasse de um caso isolado. Infelizmente é muito mais grave! Várias edições de TXO, TEH e TXC apresentam impressões horríveis, o que me leva a questionar: Será que vale a pena continuar? Para quê desperdiçar dinheiro se já tenho as histórias e se as edições de há vinte ou trinta anos têm melhor impressão que as atuais? Confesso que estou a atingir o meu limite, em o prazer de possuir as coleções completas não justifica o preço que estou a pagar por uma qualidade tão baixa. Quantos outros colecionadores não estarão próximos desse limite?

Esmiuçando os problemas das diversas coleções, começando pelo TXC3. 

TEX COLEÇÃO 364 COM DESENHOS DE CLAUDIO VILLA. CONSEGUE IDENTIFICAR O TRAÇO?
TEX 247 COM UMA IMPRESSÃO
 BEM NÍTIDA
As pranchas apresentarem-se com uma impressão demasiada carregada, escurecida, escondendo detalhes, iludindo o leitor sobre o momento da ação e, em alguns casos, destruindo completamente a arte do desenhador, é o principal problema desta publicação. Os desenhadores mais afetados são os que mais detalham os desenhos, e que mais utilizam o preto, como Ortiz ou Fusco. Mas não só, até os artificies da nona arte mais apreciados atualmente, como Fabio Civitelli ou Claudio Villa, vêm os seus trabalhos completamente ofuscados em algumas edições, para não utilizar uma expressão mais gravosa. Outro problema que afeta esta coleção é a falta de nitidez! Os desenhos parecem desfocados, se conjugado com a impressão demasiado escura... Uma fase em que se encontram os desenhos desfocados e escurecidos é entre o 361 e o 369. Segue-se uma fase em que apenas se encontram as pranchas demasiadas escurecidas, entre os números 370 e 390. Voltando a piorar após o 391.

TXC 391 IMPRESSÃO ESCURECIDA,
FOSCA NUM PAPEL POUCO BRANCO
Curiosamente, o papel utilizado nesta coleção até é de uma boa gramagem, pecando apenas pela falta de brancura em algumas edições. Falta referir a numeração das páginas que considero apenas um pormenor: Existiam falhas até ao 369, por vezes não existia numeração, outras a falta do logotipo. Aspeto que aparentemente foi corrigido! Depois desse número todas as revistas incluem a numeração com o logotipo! Para comprovar o que afirmo recomendo a observação do 364, “O rancho dos homens perdidos” de Villa, do 366, “A caverna dos Thugs” com Galep, ou, “O sangue no rio” de Fusco. Três desenhadores de inegável qualidade, que nestes trabalhos estão praticamente irreconhecíveis devido à péssima qualidade gráfica, ou ao trabalho de pré-impressão.




TEH 78
TEH4 apresenta os mesmos defeitos, mas de uma forma bem mais ligeira, em que o principal problema continua a ser a impressão muito escura. No entanto, este escurecimento das pranchas apenas é observado em partes das histórias e não nas edições completas, como acontece em TXC. Quanto a imagens desfocadas, apesar de existirem, a quantidade é negligenciável. Nos números 84 e 88, incompreensivelmente, foi utilizado um papel demasiado fino e que enruga junto à colagem. Não se percebe esta experiencia com um papel muito pior que o utilizado nas outras edições! Já a numeração das páginas com o logotipo da coleção é utilizada assiduamente desde o número 83. Histórias em que se podem observar os problemas indicados, salientam-se os seguintes números: 78, 80, 85, 87 e 88.
TXO 65 - CENAS DIURNAS
Quanto à coleção TXO5, as edições com papel fraquíssimo aumentaram! Nesta situação incluem-se os números 64, 65, 66, 71 e 75. O principal problema continua a ser a impressão demasiado carregada em quase todas as edições, no entanto, a desfocagem, a falta de nitidez, também estão presentes, principalmente nas edições 64 a 66 e 71 e 72, isto se excluirmos os TXO 78 e 79, que me despertaram para este problema, e que são, sem dúvida, as piores edições deste leque observado. A numeração com o logotipo da coleção foi recuperada em TXO 80, curiosamente, depois de em Maio de 2015, na rubrica “Correio do Oeste” do TEX 547, em resposta a uma observação de Thiago Ferreira Barbosa, os responsáveis da editora terem informado os colecionadores, e passo a citar, “...não dá para colocar a numeração. Os leitores têm de conviver com isso que, aliás, na nossa opinião não é um problema muito grave.” A questão que fica é: O que é que mudou na editora em tão curto espaço de tempo, que tornou importante, e possível, numerar as páginas com a inclusão do logotipo da coleção?


VINHETAS FOSCAS E ESCURECIDAS EM TEH 94
Poderia ter analisado mais edições mas penso que a amostragem é suficiente e significativa. Nos últimos anos estas três coleções perderam qualidade, apresentam frequentes problemas de impressão, como falta de nitidez ou impressão demasiado carregada, utilização de papel excessivamente fino ou escuro, e ausência ou erros de numeração nas páginas. Como agravantes, serem publicações caras e não publicarem histórias originais! TXC está a republicar o que saiu em TXO (TXC 396 intitulado de “Morte no rio” é uma reedição de parte da história de TXO 21, de Novembro de 2005) e TEH reedita o que saiu em TXC (“Little Rock” aventura publicada em Novembro de 2015 em TEH 94, é uma republicação dos números 238 a 240 de TXC, publicadas entre Novembro de 2006 e Janeiro de 2007). Quanto TXO, reedita pela primeira vez histórias que foram publicadas em TEX a partir do numero 195). O ultimo número de TXO, o numero 81, “A mascara do terror”, foi publicado entre Novembro de 2003 e Janeiro de 2004, nas edições 409, 410 e 411 de TEX. Se nos primeiros tempos da editora se justificava a existência das diversas coleções, pois existiam histórias que não eram publicadas há décadas, neste momento esse cenário já não se coloca, pois a editora publicou praticamente tudo o que diz respeito ao personagem. Sabendo que os colecionadores apreciam a qualidade, a apresentação, o detalhe, características que ultimamente estas publicações pouco têm apresentado, e os leitores dão mais importância à quantidade e ao preço, mas o elevado preço afasta-os, até porque se querem apenas a leitura, e se considerarmos que as aventuras que estas coleções publicam não são inéditas e estão à distância de um clique, basta procurar na NET, quem é o publico alvo destas coleções? Apenas um cada vez menor numero de colecionadores fanáticos nos quais eu me incluo, não sabendo no entanto, por quanto mais tempo vou continuar. 

CENAS DIURNAS EM TEH 88 - IMPRESSÃO EXCESSIVAMENTE CARREGADA
O que é mais intrigante é que nas coleções de originais estes problemas raramente acontecem! As revistas têm normalmente uma boa impressão, com a tonalidade adequada e estão numeradas. Então se é possível fazer bem nessas coleções e em determinadas fases nas coleções de reedições, porque não fazê-lo sempre? Se determinado papel é utilizado de forma satisfatória em determinadas coleções, porque fazer experiências com outro papel, como o que foi utilizado na quase totalidade das edições de TEX entre o 521 e 531, em ALMANAQUE TEX (ATX) 45, e nas edições já identificadas em TXO e TEH? Para fazer um teste não é necessário colocar a revista nas bancas, basta efetuar uma prova!

Não tenho dúvidas, se as publicações Bonelli continuam nas bancas brasileiras e portuguesas muito se deve ao esforço e dedicação da Mythos. Basta observar como a Panini tratou “A FACE OCULTA” em que publicou apenas duas edições, cancelando-a de seguida por não atingir as objetivos pretendidos, para perceber que a Mythos trata os personagens de outra forma. Mas isso não a torna imune a críticas, pois têm cometido muitas falhas nos últimos anos! À falta de qualidade de diversas edições e coleções, juntam-se decisões editoriais que considero incompreensíveis e mesmo auto-destrutivas6. Como o elevado número de coleções de Tex em publicação, em que promove a concorrência entre os próprios produtos. Como senão bastassem as existentes, a editora prepara-se para o lançamento de uma nova coleção: TEX PLATINUM. Mais uma republicação, esta de TEX ANUAL. Este lançamento denota outros aspetos em que a editora deve melhorar rapidamente! A decisão sobre o tipo de produto que vai colocar no mercado e a divulgação e publicitação dos seus artigos! Somente a 01 de Fevereiro, no blogue do Tex, com a atualização das datas de lançamento das coleções para 2016, os fãs têm conhecimento da existência da referida coleção. Relativamente a este assunto o site oficial da editora continua “mudo” quando deveria ser o principal instrumento de divulgação! Nesse mesmo POST, no comentário efetuado pelo editor, tomamos conhecimento que ainda não está definido o formato, pois está dependente do preço. Tudo isto a decorrer no mês que se prevê o lançamento. O atraso no lançamento das publicações é outro ponto que carece de atenção por parte da editora pois têm sido demasiado frequente.

Os problemas nas revistas aqui identificados, e as falhas da editora não são novidade, sempre ocorreram, mas não com a intensidade dos últimos tempos, e fosse por paixão, por vício, por obsessão, ou qualquer outro sentimento que mova os colecionadores, estes sempre compraram as publicações, negligenciando esses aspetos. Então qual é a novidade?

PREVISÃO PIB BRASIL 2016
A novidade foi o ano de 2015 ter sido o pior dos últimos 25 anos em termos económicos, milhares de brasileiros terem perdido os seus empregos e poder de compra, e infelizmente, contrariando todas as previsões de todas as entidades ao longo do ano transato, 2016 não será melhor! E 2017 será apenas, na melhor das hipóteses, um ano de estagnação! Quem o afirma são o Banco Mundial e o FMI em previsões realizadas em Janeiro de 2016. Esta combinação de fatores leva os colecionadores a tornarem-se mais racionais nas suas decisões, mais seletivos nas suas compras, e mais intolerantes perante os problemas com as publicações, pelo que os produtos que não apresentem qualidade, ou um excelente preço, estarão na linha da frente para o insucesso, onde se incluem atualmente TEH, TXC e TXO, pois não apresentam nenhum desses atributos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Em situação normal receberia com muito agrado a notícia de uma nova coleção de Tex, no entanto, após ter observado com detalhe a qualidade das coleções de reedições, receio que TEX PLATINUM seja apenas mais uma coleção em formatinho, impressa em papel de jornal de fraca qualidade e com preço elevado, que apenas desperte o interesse de quem não possui os primeiros números de TEX ANUAL. 

LEGENDA:
1 O blogue do Tex informou que TEC vai sofrer uma pausa na publicação durante o ano de 2016.

2 A Mythos apenas falta publicar 3 histórias antigas do TEX mensal italiano: “Missão em Silver Bell” TEX 56, “Sangue em Buck Horn” TEX 58 e 59 e, “O medalhão espanhol”, TEX 364.

3  Analisadas as revistas desde o Nº 361, de Julho de 2014.

4   Analisadas as revistas desde o Nº 73, de Setembro de 2007.

 Analisadas as revistas desde o Nº 61, de Julho de 2012.

Outro exemplo de decisão editorial, no mínimo incompreensível, foi a manutenção de OGCT após lançamento de TEC em Outubro de 2009, em clara concorrência a essa nova coleção, pois publicava as histórias da mesma época, diferindo apenas na apresentação (preto e branco, formatinho, histórias completas, qualidade do papel e preço inferior). Na época, num texto intitulado de RECOMEÇAR coloquei em dúvida o sucesso dessa publicação e que a manutenção das duas, poderia levar ao insucesso de ambas. Após seis números do TEC a Mythos anunciou o cancelamento de OGCT reconhecendo a evidência da incompatibilidade de existência das duas publicações.

REFERENCIAS:





terça-feira, 22 de dezembro de 2015

PORQUÊ PATAGÓNIA?

CLÁSSICOS DA BD
 SÉRIE OURO Nº8
Agosto de 2005 foi uma data marcante para os fãs portugueses de Tex Willer! Pela primeira vez uma aventura deste personagem é publicada em Portugal! Os leitores portugueses, que acompanhavam o herói através das coleções brasileiras, distribuídas no nosso país desde a década de setenta do século passado, aguardavam esta data ansiosamente, pois havia largos meses que o evento era publicitado. “Tex contra Mefisto”1, aventura clássica do personagem que enfrenta pela segunda vez, aquele que se tornaria o seu pior inimigo, foi a aventura selecionada para o oitavo número da coleção: CLÁSSICOS DA BANDA DESENHADA, SÉRIE OURO. Iniciativa conjunta do jornal diário, O CORREIO DA MANHÃ, e a editora, PANINI COMICS! Na época, num texto escrito para o blogue do Tex intitulado de "SINGELO??" especulei sobre as condições em que poderia ser viável a publicação no nosso país, de álbuns especiais deste protagonista. Condições essas bastante agravadas com recente entrada da Mythos no mercado dos álbuns de luxo, através de TEX EDIÇÃO GIGANTE EM CORES.

TEX ALBO SPECIALE
Passados dez anos sobre o acontecimento confesso que já não acreditava mais nessa possibilidade! Foi assim com muito entusiasmo que, em Maio último, tomei conhecimento da iniciativa da Polvo editora em publicar, em Portugal, um segundo álbum do herói criado em 1948, pela dupla Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini. Fruto do estrondoso sucesso obtido em Itália, desde a sua publicação, alvo de várias edições, de várias editoras, em diversos países, “Patagónia”, a aclamada obra de Mauro Boselli, com a arte de Pasquale Frisenda, foi a opção óbvia. Todavia, considerando a especificidade do mercado português, terá sido a escolha acertada?

PRANCHA ILUSTRADORA DOS MASSACRES
 EM TRÊS ARROYOS
Após os massacres do posto de Belgrano e da povoação de Três Arroyos pelos Tehuelches do norte, o chefe de estado-maior da república Argentina, o general Alsina, defensor de uma política de boa vizinhança e de coabitação com os índios, vê-se pressionado pelos seus adversários políticos e, pela opinião pública do seu país, a envolver-se numa guerra contra toda a população indígena. Numa tentativa de evitar a guerra eminente que poderia levar ao extermínio das diversas tribos, o general organiza uma expedição militar com os objetivos de capturar os autores dos massacres, resgatar os reféns, e obter a assinatura de tratados de paz com as tribos pacíficas. Anulando desta forma os argumentos dos detratores da sua política! Tex e o seu filho Kit vão ser envolvidos nesta perigosa missão a pedido do encarregado de chefiar a expedição às pampas, o major Ricardo Mendoza, amigo de longa data de Tex e Montales. A situação já de si explosiva vai agravar-se com a nomeação do general Roca, para novo chefe do estado-maior, por falecimento do general Alsina. A orientação política do novo comandante não visa o diálogo mas sim, a subjugação de todas as tribos ao poderio militar, incluindo as que se mantiveram neutras. Perante esta alteração drástica, na forma de levar a paz ao território, Tex vê-se perante o dilema de cumprir a palavra dada a Ricardo, mantendo-se a seu lado nos massacres que se avizinham, ou, faltar ao compromisso assumido, lutando ao lado dos índios pacíficos que considera injustiçados

FUZILAMENTO DE JUDEUS EXECUTADO PELOS NAZIS
A história universal está repleta de exterminações em massa de grupos étnicos ou religiosos, em nome das mais diversas causas. Bem presentes na memória dos povos estão as atrocidades cometidas pela Alemanha nazi, no período compreendido entre 1933, após a subida ao poder do partido Nazista e do seu líder, Adolf Hitler, até ao final da segunda guerra mundial. Período em que a “Solução Final”, nome atribuído ao projeto de aniquilação total dos judeus europeus, provocou a morte de cerca de seis milhões de pessoas, só dessa raça.
ILUSTRAÇÃO SOBRE O GENOCÍDIO DOS ÍNDIOS
 DURANTE A CONQUISTA DA AMÉRICA
O primeiro genocídio dos tempos modernos ocorreu, no entanto, muitos séculos antes, aquando da conquista da América. Estudos levados a cabo por historiadores do seculo XX permitiram concluir que durantes cinco décadas, entre 1500 e 1550, o continente americano perdeu, pelo menos, 70 milhões de seres humanos. Cerca de noventa por cento da população estimada para a época! Séculos mais tarde, na Argentina em 1834, foi desencadeada uma operação, intitulada de “Campana del desierto”, que visava o extermínio dos indígenas sobreviventes que ocupavam as pampas, transformando-as em espaços desabitados, com o propósito de possibilitar o avanço da chamada civilização. A iniciativa coordenada com o governo do Chile a que se juntou também o Uruguai, não teve o sucesso pretendido e, posteriormente, em 1878, o ministro da guerra, Julio Argentino Roca, leva ao Congresso Nacional e aprova a lei de expansão das fronteiras. O que não foi mais do que a continuação da campanha do deserto, com o mesmo objetivo: Erradicar a população indígena das pampas e substitui-la por uma população, dita civilizada. Roca, intitulado de conquistador do deserto e que viria inclusive a tornar-se presidente da Argentina em 1880, é hoje considerado por diversos historiadores, como o fundador da Argentina moderna.


TROPAS ARGENTINAS DO SECULO XIX
Conjugando uma ideia de Sergio Bonelli, que pretendia colocar Tex no seio das campanhas do deserto na Argentina, com um dos factos que despoletaram segunda tentativa de irradicação da população indígena das pampas, os massacres dos habitantes da povoação de Três Arroyos,  Boselli constrói o enredo de “Patagónia”, que já é considerada por muitos, como das melhores histórias de sempre deste herói. Esta mistura entre a realidade e ficção, extremamente bem conseguida pelo autor, pode ser enriquecedora e transformar o que é lúdico em didático, faltou no entanto, destrinçar quais os factos veridicos2.

PRANCHA DE FRISENDA
Considerar “Patagónia” um western significa que não se leu a obra, ou, no mínimo, equivocou-se! A única semelhança que esta aventura têm com o western é o facto de dois dos protagonistas vestirem indumentárias de cowboys! “Patagónia” pode ser considerada uma aventura épica, um trama politico, um drama humano, ou a mesmo, a combinação destes três géneros. Mas nunca um western! O fulgurante sucesso desta história pode-se justificar pela riqueza dos temas! Temas interessantes, como as disputas raciais pelos territórios, racismo, genocídio, e políticas de expansão e desenvolvimento económico. Temas fraturantes da opinião pública em qualquer país ou época! Mas não são apenas os temas! “Patagónia” é muito mais! A obra encontra-se recheada de personagens carismáticos, como Ricardo Mendonza, porventura o personagem que mais sobressai: Homem honesto, leal, patriota, sonhador, honrado, cujos ideais e valores se sobrepõem às suas ambições pessoais. Ricardo personifica claramente aquelas pessoas que estão sempre preocupadas em fazer o mais correto! Que avaliam todas as consequências de cada decisão! Que percebem, que independentemente da decisão que tomarem, há sempre consequências, e que existirá sempre alguém a sofrer por essa tomada de decisão. Este idealista, não obstante ser o chefe da expedição, vai sendo constantemente arrastado pelos acontecimentos, e apesar de arriscar a sua carreira ao tentar contornar as ordens, de forçar os Ranqueles à rendição incondicional, vai revelar-se impotente para impedir a guerra, que tanto queria evitar. Em oposição ao honrado Ricardo sobressai o major Recabarren que representa algumas das piores facetas do ser humano. Individuo cruel, cínico, sádico, racista, prepotente, inconsciente e vingativo, que se tornará o principal responsável pela inevitabilidade da guerra, ao ordenar o fuzilamento de Mancuche e exterminar a tribo dos Tehuelches do sul. Os aliados do exército Argentino!

CALFUCURÁ, CHEFE DOS
 TEHUELCHES DO NORTE
Seria exaustivo estar a caracterizar todas as personagens que se destacam pois são bastantes, contrariando de certa forma, as aventuras recentes do ranger onde se aponta como uma das principais lacunas, a inexistência de personagens carismáticas. Além de Ricardo, mas com menor dose de protagonismo, salientam-se: Calfucurá o sanguinário chefe dos Tehuelches do norte, Mancuche, o nobre e honrado chefe do Tehuelches do sul, Chonki, Fernando e Julio Morales, os fiéis batedores gaúchos, mas também Solano, que após a derrota na luta com Tex se tornaria um aliado fiel, e um dos principais responsáveis pelo sucesso da operação de resgate dos reféns, realizada à aldeia de Calfucurá.

Além dos temas e dos personagens, outros fatores poderão ter contribuído para o sucesso desta aventura, como o facto de decorrer nas pampas argentinas, cenário inesperado para uma aventura de Tex, ou as influencias demasiado evidentes de Nolitta, incorporadas principalmente no personagem Ricardo Mendoza, com as dúvidas que o atormentam sempre que têm de tomar decisões, e no final dramático, em que todas as partes ganham um pouco, mas perdem imenso.

TEX ITALIANO Nº 250
Como aspeto menos conseguido no trabalho de Boselli, considero a forma pouco crível como coloca Tex e Kit no centro da ação! Não me parece plausível que um cowboy seja convidado a chefiar uma patrulha de exploradores, numa expedição punitiva do exército argentino, ao interior das pampas, sendo-lhe atribuída a patente de capitão. Seria mais verosímil se o convite fosse para consultor, sem nenhuma patente militar. Em “Il solitario del West” 3, numa aventura com algumas semelhanças, em que os mesmos personagens saem do seu “habitat natural”, desta vez à Colômbia e Panamá, Guido Nolitta, o argumentista, conseguiu ser mais credível ao justificar com a tristeza de Kit, provocada pela morte de um amigo e com a necessidade de distrair para esquecer a dor. Tex e Kit aceitam o convite do fotógrafo O`Sullivan apenas para acompanharem a expedição, e nunca com a pretensão de resolverem problemas!

Se o trabalho de Boselli é muito bom, como considerar arte de Frisenda?

VINHETA CENA NOTURNA
Apesar de não considerar Pasquale Frisenda um dos meus desenhadores preferidos, parece-me impossível não gostar deste seu primeiro trabalho em Tex. Não é fácil de caracterizar o seu traço! Vejo-o como uma mistura de Ortiz dos tempos áureos, devido à caracterização dos personagens e ao contraste branco/negro que consegue colocar nas suas pranchas, com Ivo Milazzo, mas com maior realismo e detalhe. Não considero o seu traço limpo, na linha de Civitelli ou Villa mas é preciso, firme, pouco denso e muito expressivo. As cenas noturnas são belíssimas, com Frisenda a conseguir um doseamento perfeito do branco/negro, mas também as cenas de nevoeiro, muito densas, muito realistas, onde é possível identificar, de uma forma dissimulada, quase imperceptível, a utilização da técnica do pontilhismo para conseguir as diferentes tonalidades de cinza. A composição dos personagens, a atenção ao detalhe no vestuário, nos acessórios, nos utensílios dos espaços interiores, são outros dos pontos altos do trabalho deste artificie milanês de 1970. Como menos positivo, o uso abusivo do preto em cenas não noturnas, que em algumas pranchas, dificulta a perceção da altura em que ocorre a ação. Acrescento também a composição do personagem, demasiado corpulento e com uma fisionomia de perfil, com o maxilar inferior demasiado pronunciado, fazendo lembrar Arnold schwarzenegger. No entanto, à que realçar a coragem do desenhador em “fugir” ao modelo de Villa ou de Ticci, definindo logo na primeira história, “o seu Tex”.

 EDIÇÃO DA POLVO
Posso discordar da maioria quando afirmam que estão perante uma das melhores histórias de sempre, do personagem, mas concordo plenamente, quando a consideram uma das melhores dos últimos anos. Acrescento mesmo, deste século! Globalmente a aventura é muito boa, devido à riqueza dos temas, à vastíssima galeria de personagens, ao dramático desfecho, e à magistral arte do desenhador. A editora Polvo apresenta-a num álbum de 228 páginas, de formato 24,5 por 18,5 centímetros, dotado de capa de cartolina com abas, com papel de excelente qualidade e excelente impressão, numa imbatível relação qualidade/preço.

Então se considero o álbum muito bem concebido, e a aventura a melhor deste século, porque questiono as opções da Polvo?

Não estão em causa, nem qualidade de história, nem do álbum! O que questiono, é se estas opções foram as mais adequadas tendo em conta o mercado da BD português, que como se sabe, é anémico. Quais foram os objetivos da Polvo ao publicar este álbum? Foi um teste ao mercado? Espera fazê-lo periodicamente? Qual é o público-alvo? Os colecionadores do personagem, os fãs de western, da BD, ou o grupo restrito que procura álbuns de qualidade? É que a melhor história, e uma excelente relação qualidade/preço do produto, não significam necessariamente, as melhores opções, temos de ter em conta, para quem se destinam!

Aparentemente a Polvo não teve em conta outros critérios que não a qualidade, e escolheu a aventura que nos últimos anos maior sucesso obteve junto dos fãs. Se o objetivo era cativar os colecionadores portugueses do ranger, então foi uma ótima escolha! O problema é que estes não passam de umas dezenas, quando muito uma ou duas centenas! Refiro-me aos que efetivamente compram mensalmente as publicações, e para esses, qualquer história, de qualquer argumentista, e em qualquer formato, seriam a escolha acertada. Se acrescentarmos os fãs portugueses do personagem, poderemos chegar até cerca de quatrocentos/quinhentos potenciais compradores! Mas obviamente, grande percentagem destes não vai adquirir o álbum! Parece-me claro, que com estes números, o sucesso do empreendimento da Polvo está comprometido! Isto é, não chega atingir os fãs do personagem, é necessário cativar outras franjas do mercado! È nessa lógica que considero, que “Patagónia” não é a melhor opção!



TEX Nº1 - 1ª EDIÇÃO
Relativamente à melhor história para o empreendimento, parece-me que a Polvo cometeu os mesmos erros que a Vecchi, quando selecionou “O signo da serpente” para o primeiro número da coleção brasileira TEX, e também, da parceria entre o jornal O CORREIO DA MANHÃ e a editora PANINI COMICS, quando selecionaram “Tex contra Mefisto”4, para o oitavo número da coleção “CLÁSSICOS DA BANDA DESENHADA, SÉRIE OURO. Para quem têm o primeiro contacto com o personagem, e desconhece completamente o universo texiano, os ambientes das três aventuras são demasiado inusitados para parecerem credíveis num western. Não quero ser mal interpretado, a BD também é fantasia, e aprecio bastante esta mistura de géneros, particularmente nestas três aventuras, provavelmente como a maioria dos fãs. Mas estas histórias pouco tradicionais poderão desagradar aos leitores mais conservadores, afastando-os definitivamente de futuras edições, afinal, esperavam encontrar um western... Neste caso, um western mais clássico, como “Pioneiros” ou “Na trilha de Oregon” da edição italiana “ALBO SPECIALE”, ou “Jovens assassinos” do TEX mensal, poderiam ser histórias mais cativantes para os desconhecedores de Águia da Noite.

PASQUALLE FRISENDA
Quanto aos autores de “Patagónia”, Mauro Boselli e Pasquale Frisenda, autores conceituados particularmente em Itália e no universo Bonelliano. Boselli escreveu principalmente histórias de Dampyr, Tex e Zagor, mas também, de Mister No. Frisenda destaca-se essencialmente pelos trabalhos em Ken Parker e Magico Vento, chegando a Tex justamente com “Patagónia”. Apesar de serem consagrados no país da velha bota, são muito pouco conhecidos em Portugal, especialmente se excluirmos os fãs das publicações Bonelli, pelo que os seus nomes só por si, não aumentam o número de potenciais compradores. Neste caso, a melhor opção seria optar por um desenhador com maior reputação em Portugal, como Colin Wilson por ser desenhador de Blueberry e Judge Dreadd, cativando assim os seus seguidores, ou José Ortiz ou Joe Kubert, pelos trabalhos em Tarzan. Os espanhóis fazem-no muito bem! Publicam as histórias de Tex desenhadas e escritas por artistas espanhóis, potenciando assim as vendas!


COMPARAÇÃO COM EDIÇÕES DA
 MYTHOS E DA CLAIR DE LUNE
Se pensarmos nos colecionadores de álbuns, outra faixa de potenciais compradores, a edição da Polvo não deixa de ficar aquém, para quem procura álbuns luxuosos. A capa demasiado mole e o formato, que das edições especiais que conheço, de diversos países, é o mais reduzido, em que a área útil das pranchas é, apenas, ligeiramente maior que no TEX mensal italiano, são visivelmente os pontos fracos da edição. Para ter essa perceção basta compara-lo com o TEX EDIÇÃO GIGANTE EM CORES, da própria Mythos, ou com a edição francesa da Clair de Lune, em que fica claramente a perder.

Outro aspeto que poderia ter contribuído para melhorar o álbum, ou publicitar os que poderão ser lançados num futuro próximo, seria inclusão de matérias sobre o herói: Breve história do personagem, edições existentes em Itália, valores sobre tiragens, países onde é, ou foi publicado, as histórias mais emblemáticas, artistas consagrados que já o escreveram ou desenharam, etc. Informação irrelevante para a grande maioria dos fãs, mas que seria uma excelente publicidade para quem têm o primeiro contacto.

Sim, tinha muitas reservas relativamente às opções da Polvo para esta edição! Se as escolhas de editora eram de facto, as mais corretas! E sim, estava muito cético relativamente ao sucesso deste empreendimento! As minhas dúvidas subsistiam essencialmente pela necessidade de conquistar compradores fora dos colecionadores da gama Bonelli, porque temia que estes fossem insuficientes para viabilizar o projeto. Afinal não existiam razões para o meu pessimismo! Segundo Jorge Magalhães, a editora prepara-se para o lançamento de mais um álbum para Abril de 2016, o que indicia claramente o sucesso de “Patagónia”. Deste modo, ou estava equivocado em relação ao numero de texianos, e eles só por si garantiram o êxito das vendas, ou relativamente às opções da Polvo, que afinal agradaram o publico em geral. Todavia, o que realmente importa, é que graças a esta corajosa editora, “Tex contra Mefisto” acabou por não ficar singelo, e que não vai ser necessário mais uma década, para Portugal ter uma nova edição de Tex Willer!

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Nesta avaliação à obra procurei “despir o trajo” de fã” e acrescentar uma perspetiva mais analítica! Nesse sentido, não dei especial relevância aos aspetos positivos que existem e são bastantes, mas sim aos pontos menos conseguidos, pois em minha opinião, numa crítica, mais importante que elevar os aspetos positivos, deve-se salientar os pontos onde existe espaço para melhorar.

Para a futura edição, que segundo o blogue se perspetiva para Abril de 2016, gostaria de deixar à consideração, além das sugestões implícitas no texto, a possibilidade de realização de pré-venda junto dos colecionadores. Conjugando a divulgação antecipada de detalhes nos blogues, fãs-clubes, facebook etc., com uma redução de preço por pagamento antecipado, poder-se-ia reduzir custos de financiamento e, em simultâneo, de publicitar o álbum e produzir uma estimativa de vendas. A própria Mythos editora utiliza esta possibilidade para a venda dos seus álbuns, assim como as pequenas editoras, onde se incluem a Lírio Comics, ou mesmo os autores como G.G Carsan, com o seu “Tex no Brasil 3”.

LEGENDA:

1 História publicada no TEX mensal italiano nos números 39 e 40 em janeiro e Fevereiro de 1974. No Brasil publicada pela primeira vez em 1975 nos números 48 e 49, do TEX 1ª edição, sendo posteriormente publicada em diversas outras coleções do personagem.


2 Cortado na edição da Polvo, mas presente nas edições italiana e brasileira da Mythos, o texto, “La conquista del desierto”, de Renato Genovese, esclarece quais eventos da narrativa aconteceram realmente. Os generais Alsina e Roca, as politicas por eles defendidas, e o chefe indígena Calfucurá, foram protagonistas de relevo na história da Argentina do século XIX. Na aventura não são referidas datas, no entanto, Alsina viria a falecer no final de 1877 e o general Roca seria nomeado ministro da guerra e marinha, no inicio de 1878, pelo que é facilmente identificável a época dos eventos.

3 Do TEX italiano 250 a 252 publicados em 1981. No Brasil a história foi publicada apenas duas vezes, a primeira em 1983, nas edições mensais de TEX 163 a 165, e a segunda em 2012, em TEX COLEÇÃO, numeros 303 a 305.

4 A seleção de “Tex contra Mefisto” foi condicionada pela publicação em Itália, de uma coleção semelhante aos “Clássicos da Banda Desenhada, Série Ouro” como justificou José Carlos Francisco, nos comentários a "SINGELO",

FONTES:

Patagónia – Polvo Editora
La conquista del desierto, por Renato Genovese – TEX GIGANTE Nº 23 da Mythos Editora
http://www.encontro2014.rj.anpuh.org/resources/anais/28/1400291781_ARQUIVO_textocompleto.pdf

PS: Texto publicado no blogue do Tex em 22 de Dezembro de 2015


domingo, 13 de dezembro de 2015

TRAPPER! OBRA-PRIMA BONELLIANA??


TEX 1ª EDIÇÃO Nº 71
Tive a sorte de descobrir o universo texiano através de uma aventura que, passados mais de quarenta anos desde a sua publicação em Itália, continua a ser considerada por muitos dos fãs como das melhores de sempre do personagem. Não consigo precisar o ano, apenas que ocorreu entre os finais da década de setenta e o início dos anos oitenta! Fruto da genialidade de Giovanni Luigi Bonelli, "Assalto ao trem1", uma típica história de western, repleta de ação, incrementada até ao final com as dúvidas sobre o paradeiro do montante roubado e, também, sobre a identidade do informante. Os desenhos da autoria do inovador, para a época, Giovanni Ticci, límpidos e muito detalhados, eram soberbos e em muito contribuíram para o fascínio desta aventura. Atualmente, Ticci é o desenhador em atividade do staff texiano com o maior número de pranchas desenhadas e, juntamente com Claudio Villa, as referências para os novos desenhadores. Esse primeiro contacto deixou-me completamente viciado! Vício que, apesar de controlado, se mantêm até aos dias de hoje! Na época procurei então por outras histórias de Tex Willer, tentando começar a coleção, incentivado pela listagem das histórias publicadas na página quatro. A péssima distribuição existente, curiosamente nada mudou neste aspeto, passados mais de três décadas, levou-me a perder inúmeras edições e por vezes, como a maioria das aventuras eram em continuação, partes das histórias. O que aumentava a ansiedade, mas também a curiosidade, sobre este fantástico universo!

TEX 2ª EDIÇÃO Nº 112
Nesta época, a  maioria das histórias publicadas pela Vecchi, a editora que detinha os direitos do personagem para o Brasil e Portugal, eram retiradas da fase que considero “a idade de ouro” deste herói: meados da década de sessenta e início dos anos oitenta! Tive assim acesso, logo nos primeiros anos, a algumas das histórias que hoje são consideradas como grandes clássicos e geralmente aceites como das melhores histórias de todos os tempos: "Forte Defiance", "A cruz trágica", "Entre duas bandeiras", "A noite dos assassinos", "Terra prometida", "A grande intriga" ou "El Muerto". A imaginação dos Bonelli, Giovanni Luigi e Sergio, era tão frutuosa, que a qualidade dos argumentos era na sua grande maioria elevada, não sendo de estranhar que muitas outras aventuras tenham marcado esta época e ficado na memória dos aficionados deste personagem. Além das referidas, entre as mais consensuais salientam-se ainda: “Caçada humana”, “Missão em Great Falls”, “O vale da morte”,O solitário do oeste”, “A patrulha perdida”, “A grande ameaça” ou “O assassino sem rosto”. Outras passaram um pouco despercebidas pelos fãs, talvez pela proximidade de publicação e não porque fossem de qualidade inferior. Entre essas aventuras encontra-se uma que aprecio particularmente e que, em minha opinião, merece destaque: “Trapper!"2

1ª TIRA DE "TRAPPER!"
Em Saint Louis, Tex e os seus pards salvam de um atentado Tom Hogan, dono da companhia de peles Missouri. Decididos a ajudar Hogan, o grupo vai envolver-se numa verdadeira guerra pelo negócio das peles. Jackson, proprietário da Rocky Montains, companhia que Hogan abandonou para fundar a Missouri, juntamente com dez dos seus melhores caçadores, utiliza todos os meios ao seu alcance para absorver a nova companhia e, assim, poder competir com as grandes companhias de peles, como a Hudson Bay. Com as informações obtidas no interrogatório a Bert Morley, um dos elementos envolvidos no planeamento do atentado a Jackson, os cinco parceiros começam a desenvolver ações para o desmantelamento da criminosa organização. Infelizmente, nem tudo vai correr de acordo com o planeado e, ao prestarem auxilio a uma caravana da Missouri, que estava a ser atacada pelos índios Snake, Tex e Tigre são capturados. A destruição dos planos de Jackson deixa de ser uma prioridade para Kit Carson, Kit Willer e Pat, o irlandês. Há que elaborar um plano de resgate que permita libertar rapidamente os seus amigos. Entretanto, na aldeia dos índios Snake, Pequeno Trovão, o chefe da tribo, é persuadido por Wanaima, a índia que Tex havia deixado em liberdade após assassinar o marido, a tratar os prisioneiros como guerreiros.  Esta providencial intervenção vai possibilitar a Tex e Tigre uma ténue tentativa de sobrevivência! Em vez de morrerem torturados num poste, vão ser caçados por todos os guerreiros que queiram participar, num ritual índio,  em que a vida ou morte dos condenados, apenas depende da ligeireza das suas pernas: A corrida da flecha!


CAÇADOR DE PELES NO SÉC. XIX
O comércio das peles, o tema desta aventura, teve uma grande influência na colonização europeia da América do Norte! Os Trappers eram, não só caçadores, mas  também, responsáveis pela extração e o curtir das peles dos animais caçados! Profissão duríssima, de perigosidade extrema e muito puco aceite pela sociedade, os caçadores de peles estiveram na vanguarda pela conquista do Oeste, sendo os primeiros a avançar pelas florestas e pradarias ainda inexploradas. No início do seculo XIX, para satisfazer a enorme procura de peles de castor, muito procuradas na Europa para fabricar essencialmente chapéus, moda originária da Grã-Bretanha, estes homens corajosos aventuravam-se pelo interior dos territórios índios, sozinhos, armados apenas com um rifle e uma faca, correndo enorme risco de serem escalpados, ao serem descobertos. A caça excessiva a este roedor só perdeu expressividade por volta de 1838, em que a redução drástica da população destes animais coincidiu com a perda de interesse dos europeus por este acessório, colocando término a este ciclo, que foi conhecido como o ciclo do castor. Com a diminuição do interesse por este tipo de couros, as peles de bisontes"3 começaram a ter grande importância no comércio das peles e, em 1850, já eram as mais procuradas, quando as manufaturas do leste do país começaram a receber pedidos muito substanciais para satisfazer as necessidades da indústria local, mas também dos mercados europeus e asiáticos.  O ciclo do búfalo termina por volta de 1880, com o quase extermínio destas criaturas, devido à procura incessante das suas peles, repetindo-se os erros ocorridos na caça ao castor.

Trapper!” possui um argumento bastante simples: guerra entre duas companhias de peles pelas melhores rotas, em que uma, a Missouri, tenta sobreviver aos ataques desleais que a segunda, a Rocky Montains, utiliza para conseguir arruiná-la e adquiri-la, conseguindo assim dimensão para competir com as outras grandes companhias de peles. Partindo desta base, G.L. Bonelli, o autor deste enredo, consegue desenvolver uma história bem interessante, consistente e bem construída, sem recurso a flashbacks, ou a saltos temporais. Aliás, em momento algum desta aventura existe referência à época! Não existem histórias secundárias a competirem com a trama principal, mas sim pequenos episódios em sequência, que estão interligados, e só por si poderiam resultar em histórias completas. Principalmente o episódio em que, ao socorrerem a caravana da Missouri, Tex e Tigre são capturados pelos índios Snake, ou o seguinte, a destruição por Tex e os seus pards do bando de Shady Bill e a tomada da caravana da Rocky Montains. Relativamente ao ritmo narrativo, existe um bom doseamento das cenas de ação, mantendo a narrativa rápida em grande parte da história, (ritmo adequado para um western), em que alterna entre o rápido nas diversas cenas de ação, com o mais lento nas cenas mais descritivas, preenchidas com diálogos longos e extensos, ou com a utilização de cartuchos e legendas para efetuar pontos de situação ou para explicação de determinadas expressões, como: “contar golpes”, “rendez-vous” ou “free for all”.

PAT EM SITUAÇAO EMBARAÇOSA
 COLOCADO PELO SEU CAVALO
Destaca-se também pela positiva a forma equilibrada encontrada pelo autor no doseamento do protagonismo atribuído aos heróis, pois todos eles têm a sua dose! Enorme protagonismo do filho de Tex e de Carson, principalmente na elaboração e execução do plano de resgate de Tex e Tigre. Pat, apesar das suas limitações, teve um papel indispensável no resgate, sendo também o responsável máximo pela parte humorística desta história, ao exibir uma relação pouco amistosa com o seu quadrupede, pela qual sofre consequências, no mínimo, desagradáveis. Não esquecendo Tigre, que luta bravamente com os Snake antes de ser capturado juntamente com Tex, deteta a presença de Webby e os seus cúmplices antes do ataque noturno ao grupo e neutraliza quatro índios Snake quando os outros pards estavam no interior do armazém de Ross Claywood, a interrogá-lo. Com Gianluigi, Carson, Kit e Tigre não são meros coadjuvantes, são protagonistas de corpo inteiro, ao mesmo nível de Tex, em que a única diferença entre eles, é a liderança deste.

PEQUENO TROVÃO, O CHEFE DOS SNAKE
Numa trama tão extensa era expetável a existência de diversos personagens secundários e, de facto, eles estão presentes! Todavia, apesar das potencialidades de alguns, como o chefe dos Snake, Shady Bill e os líderes da caravana Jean Pierre de la Motte e Ben Dermott, são pouco explorados pelo autor. Incluindo Jackson, o mentor da organização criminosa que apenas aparece em pouco mais de uma dezena de pranchas. Talvez a forma como está estruturado o roteiro, em cadeia, em que os personagens vão entrando e saindo de cena, como se de etapas se tratasse, tenha impedido o escritor de explorar esta vertente.

Outro aspeto menos conseguido é a conclusão da aventura! Após a rendição da caravana da Rocky liderada por Ben Dermott, completamente iludido com a estratégia de Tex, este delega em Pat a missão de informar Hogan dos últimos eventos e instrui-lo para não perder a oportunidade de enfrentar Jackson, agora que a organização se encontra totalmente destruída. Este final, abrupto e apressado, sem definir o destino de Jackson4, é talvez a parte mais pobre da obra!

PRANCHA DE TEX 56 - APACHE KID
Erio Nicolò, o desenhador desta aventura, nasceu em Florença a 11 de Novembro de 1919, tendo falecido em 27 de Fevereiro de 1983, após dezanove anos a desenhar o ranger e contribuído para a realização de algumas das mais emblemáticas histórias do personagem! Além de “Trapper” salienta-se “Apache Kid”, “A flecha quebrada”,O índio branco” ou a aclamada “A grande intriga”, entre muitas outras. Possuidor de um traço limpo, preciso, mas suave, acima de tudo singular, o seu estilo é inconfundível e perfeitamente identificável em todas as pranchas! Os personagens são credíveis, apresentando fisionomias realistas e imutáveis, independente dos ângulos ou enquadramentos. Como aspeto menos positivo, a utilização de feições similares para diferentes personagens, nos seus trabalhos, mas também na mesma aventura, como em “Trapper!”. Hogan e Jackson, os donos das duas companhias rivais, possuem fisionomias demasiado semelhantes, o que deveria ter sido evitado!  


VINHETA "RASGADA"
Com Nicolò, raramente se detetam erros de proporção da figura humana, que domina com mestria. A diagramação das pranchas é bastante rígida, fiel ao padrão Bonelli de três tiras por prancha, com uma ou duas vinhetas por tira, na quase totalidade das cerca de quatro centenas de páginas. As exceções são o “rasgar” de algumas vinhetas, com o objeto a ultrapassar a área do desenho, transmitindo, assim, maior tridimensionalidade.


AMBIENTE NOTURNO
Já no que diz respeito a enquadramentos e ângulos, a obra de Nicolò  é bastante diversificada, utilizando, no entanto com maior frequência, os primeiros e os grandes planos. A frequente  alteração de ângulos e enquadramentos leva-o por vezes a cometer alguns erros de posicionamento dos personagens, o que compensa com o dinamismo transmitido às cenas, mesmo nas pranchas com maior saturamento de texto! A ambientação desta aventura é bastante variada e complexa, exigindo ao desenhador enorme capacidade de adaptação aos inúmeros ambientes e cenários, o que Nicolò resolve competentemente, graças à sua versatilidade. Aprecio particularmente as cenas passadas nos ambientes externos da floresta e da pradaria, assim como as cenas noturnas. Apesar de não pormenorizar muito os cenários, o facto é que, com Erio muito raramente observamos uma vinheta “desnudada”. Mesmo nos grandes planos, o que enriquece de sobremaneira as suas pranchas!

AVENTURA DA IDADE DE OURO
"A NOITE DOS ASSASSINOS"
As aventuras de “a idade de ouro” tinham algo! Algo fascinante que as tornava marcantes, que mantinham os leitores interessados, presos à leitura! Fascínio que raramente consigo encontrar nas aventuras deste século5, que considero demasiado complexas e por vezes monótonas ou desinteressantes. São vários fatores que o podem justificar, como a existência de um maior equilíbrio entre as cenas de ação e as mais descritivas, um maior protagonismo dos outros personagens (Kit, Kit Carson, Tigre), mas também a frequente inclusão de humor ou suspense nos enredos, ou a presença assídua de inimigos poderosos ou carismáticos que colocavam os protagonistas em enormes dificuldades, ou ainda, uma boa exploração do desfecho final. Nem sempre todos estes componentes estavam presentes em cada aventura. Nem era necessário! Pois o que tornava as histórias memoráveis era o correto doseamento dos componentes utilizados, mantendo assim a narrativa viva, num ritmo adequado a um western. Em minha opinião, a fórmula do sucesso dos Bonelli para criarem grandes histórias, assentava essencialmente nessa capacidade de conjugar, de uma forma harmoniosa, os diversos ingredientes da aventura!

Se retirarmos a Trapper! o desfecho que, como já referi, considero bastante fraco, tendo em conta a dimensão do enredo, todos os outros ingredientes estão bem presentes, com um doseamento adequado e, se adicionarmos o trabalho gráfico de Nicolò,  competente, bastante personalizado, conseguindo bons desempenhos em todos os ambientes e cenários, mesmo considerando não tendo a profundidade de Villa, o dinamismo de Ticci, que também faz parte dessa fase, o realismo de Frisenda, o detalhe de Rossi, ou mesmo a perfeição de Civitelli, perceberemos que estamos perante um verdadeiro western, digno de figurar na galeria das obras primas bonellianas.


LEGENDA:

1 História publicada originalmente em Setembro e Outubro de 1975 em Itália, nos números 179 e 180 da coleção Tex. No Brasil já foi publicada quatro vezes, a primeira no Nº 71 da coleção Tex, em Janeiro de 1971.

2 Na Itália saiu para as bancas pela primeira vez entre Novembro de 1976 e Fevereiro de 1977, nos números 193 a 196 da edição regular de Tex. No Brasil foi publicada inicialmente entre Fevereiro e Maio de 1981, também na edição mensal, nos números 120 a 123.

3 Bisontes, bisões ou búfalos.

4 O facto de o destino de Jackson não ter sido revelado deixou em aberto o seu regresso numa próxima aventura! Retorno esse que passados quase quarenta anos ainda não foi aproveitado por nenhum dos argumentistas do personagem. Boselli, que têm “ressuscitado” diversos personagens da saga, têm em Jackson um inimigo poderoso e sedento de vingança, capaz de protagonizar uma excelente trama, na linha de “A grande intriga”: um homem poderoso a movimentar influências para prejudicar Tex e os seus amigos, levando-os a enfrentar enormes dificuldades, permanecendo no anonimato até próximo do final da aventura. Momento em que seria então revelado em flashback, o sucedido após Tex se ter despedido de Pat.

5 Sou de opinião que a qualidade média das histórias aumentou nos últimos anos, se comparada com as últimas duas ou três décadas. Refiro-me por exemplo, só para mencionar algumas das histórias mais recentes: “Na pista de El Supremo”, “Jovens assassinos” ou “Patagónia”. Esta ultima, unanimemente considerada como das melhores histórias do personagem! Suponho que este ganho de qualidade se deva, essencialmente, à entrada de Gianfranco Manfredi, Tito Faraci e Pasqualle Ruju para o staff, que além de trazerem novas ideias e novas perspetivas para o personagem, permitiram reduzir a quantidade de argumentos destinados a Boselli, dando-lhe assim mais tempo para o desenvolvimento dos seus roteiros.

FONTES:
TRAPPER! – TEX 1ª EDIÇÃO Nº 120 A 124


PS: Texto publicado na revista Clube Tex Portugal Nº 3 em Dezembro de 2015